0
 

Arqueologia e ética do sentimento

Para Renata, meu amor.

Prelúdio: O Amor como Pergunta

Sempre me pareceu uma ironia cruel que a experiência mais visceral da existência humana — aquela que nos faz perder o sono, o apetite e, não raro, o juízo — seja, em larga medida, um produto de ficção.

Se o amor é uma invenção, sua dor manifesta-se com uma precisão biológica desconcertante. Uma ausência no lado esquerdo da cama pode se manifestar como uma arritmia real, uma falta de ar que nenhum exame clínico consegue explicar.

O amor não é um dado bruto da nossa espécie, como o instinto de sobrevivência ou a fome; ele é um palimpsesto. Sob a pele do que chamamos hoje de “paixão”, jazem camadas de textos antigos, canções de gesta, decretos religiosos e roteiros cinematográficos acumulados ao longo dos séculos. Escrevemos o nosso afeto sobre as rasuras dos que nos precederam, acreditando piamente na originalidade da nossa caligrafia.

Se o amor é uma construção cultural, ele detém o poder de nos inventar com força absoluta. Somos nós, as criaturas, que acabamos por nos tornar o rascunho da nossa própria criação.

A Tese e os Seus Fantasmas

A ideia de que o amor ocidental possui uma certidão de nascimento e um endereço de origem continua a ser um fantasma que assombra as nossas certezas. Em 1939, Denis de Rougemont publicou O Amor e o Ocidente, lançando uma tese que ainda soa como heresia para os românticos incuráveis: o amor-paixão, tal como o conhecemos, foi uma invenção do século XII, gestada nas cortes da Provença e codificada pelo mito de Tristão e Isolda.

Para Rougemont, o amor não é o desejo de união, mas o desejo de obstáculo. Tristão e Isolda não se amam; eles amam o amor, ou melhor, amam a impossibilidade de estarem juntos. O filtro que bebem por engano — uma poção que os condena, não à felicidade, mas à morte — não é um acidente narrativo, mas a chave do mito.

O paradigma fundador do afeto no Ocidente não é o encontro, mas a falta.

A espada colocada entre os dois amantes na floresta de Morois é o símbolo máximo dessa construção: o amor precisa da barreira para existir. Sem o impedimento — seja ele o casamento de Isolda com o Rei Marc, a distância geográfica ou a própria morte — a paixão se dissolve na banalidade do cotidiano.

O problema de Rougemont é a linearidade com que trata essa genealogia. Ele enxerga o amor como uma doença literária que se espalhou da elite trovadoresca para as massas. Mas o pergaminho é mais complexo. O amor não é apenas um texto que se lê; é uma “estrutura de sentir” (Raymond Williams) que empresta do mito a sua gramática, mas que precisa de algo mais para se sustentar na carne. Os trovadores não apenas inventaram um sentimento — inventaram uma tecnologia de sublimação. Como Lacan observou, o amor cortês é um tratamento possível do feminino por meio do interdito: a dama inatingível não é um objeto de desejo, mas um vazio em torno do qual o desejo se organiza. A poesia que daí nasce é o sintoma de uma ausência estrutural, não de uma presença impossível.

O Amor como Ferida Original

Antes que os trovadores inventassem a cortesia, a Grécia já havia nomeado o amor como uma patologia do espírito. Safo, a décima musa, descreveu-o como glykypikron — o doce-amargo. Na sua poesia, o amor não é uma elevação, mas uma queda. É o corpo que treme, a língua que se quebra, o fogo sutil que corre sob a pele. Pela primeira vez na literatura ocidental, o amor não é narrado: é sentido na pele — e o que se sente é contraditório.

Entre Safo e os trovadores, porém, há uma dobra essencial que o palimpsesto não pode ignorar: o cristianismo. Foi Agostinho quem cindiu o amor em duas direções inconciliáveis — o uti (usar) e o frui (fruir). Amar algo por si mesmo ou amar algo como meio para um fim superior. Essa fratura teológica deixou o Ocidente com uma dúvida irremediável: todo amor terreno é, em alguma medida, um erro de categoria. Amamos demais o que deveríamos apenas usar; usamos o que deveríamos amar. O amor cortês, séculos depois, será uma tentativa desesperada de resolver essa fissura — transformando a mulher amada num equivalente laico de Deus, mantendo a distância que o cristianismo exigia entre o fiel e o sagrado.

Ao contrário de certas tradições orientais, onde o afeto pode ser visto como uma harmonização com o cosmos, o Ocidente escolheu fazer do amor uma ferida. O conceito chinês de yuanfen sugere uma predestinação que liga os amantes por fios invisíveis antes mesmo do nascimento — sem a necessidade do drama individualista. O mono no aware japonês celebra a beleza efêmera de cada encontro precisamente porque ele é passageiro. Nós, ocidentais, nos agarramos à ideia de que o amor só é autêntico se for dilacerante.

Essa escolha cultural moldou a nossa incapacidade de amar no presente. Se o amor é uma ferida, passamos a vida ou a cutucar a crosta para sentir que estamos vivos, ou a procurar desesperadamente um bálsamo que, por definição, o amor-paixão não pode oferecer. A ferida é a sua própria razão de ser.

Quando olhamos para a filosofia ubuntu, na África subsaariana — “uma pessoa é uma pessoa através das outras pessoas” — percebemos o quão exótica e solitária é a nossa invenção do amor romântico. O ubuntu não pergunta “quem sou eu sem você?”, mas “quem somos nós juntos?”. É uma cosmovisão em que o ser não precede a relação: a relação constitui o ser. O amor, nessa chave, não é um encontro entre dois indivíduos autônomos que decidem se associar; é o reconhecimento de que já estamos, desde sempre, ligados. O drama do amor romântico ocidental — a queda, a perda, o ciúme, a possessão — é, sob essa luz, o privilégio caro de quem pode se dar ao luxo de esquecer que pertence. Um amor centrado no “eu” que se perde ou se encontra no “outro”, enquanto outras culturas há muito sabem que amar é pertencer, não reter.

O Amor é uma História que Contamos a Nós Mesmos

Raramente nos apaixonamos por pessoas; apaixonamo-nos por narrativas. Stendhal chamou a isso de “cristalização”: o processo pelo qual a mente reveste o objeto amado com perfeições imaginárias, tal como um ramo seco deixado nas minas de sal de Salzburgo emerge coberto de diamantes brilhantes. O ramo continua sendo madeira, mas o que vemos é o brilho.

Proust levou essa ideia ao paroxismo com Charles Swann, que gasta anos de sua vida por uma Odette de Crécy que, como ele mesmo admite ao final, “não era o meu tipo”. O drama de Swann não é amar uma mulher que não o merece; é amar a imagem que construiu sobre uma mulher que nunca existiu. Sabendo disso, ele continua amando. O sentimento não está no objeto, está na narrativa.

O amor é um instinto de storytelling. Somos os roteiristas de uma comédia romântica que insistimos em projetar sobre desconhecidos. Somos capazes de construir, em segundos, uma biografia inteira para a pessoa sentada à nossa frente no trem — e nos apaixonar por essa biografia. Ela é sempre mais interessante e coerente do que a pessoa real. O Tinder não mudou a natureza do amor: apenas acelerou a nossa capacidade de descartar roteiros que não nos agradam nas primeiras páginas. Antes de haver afeto, já há texto.

O Cérebro Apaixonado: a Biologia que a Cultura Molda

Poucas tensões expõem tão claramente as costuras do palimpsesto quanto o confronto entre a química cerebral e a narrativa cultural. Cientistas como Helen Fisher argumentam que o amor romântico é um sistema de recompensa biológico, uma inundação de dopamina e ocitocina projetada pela evolução para garantir a reprodução da espécie. Para a neurobiologia, Tristão e Isolda seriam vítimas de um surto de norepinefrina.

O problema não é a biologia — é o que fazemos com ela. António Damásio demonstrou que as emoções são processos corporais mapeados pelo cérebro, mas o significado que atribuímos a esses processos é cultural. O mesmo sistema de recompensa que dispara diante do ser amado dispara diante de um vício, diante de uma aposta, diante de uma tela. A química não distingue Tristão de um usuário de caça-níqueis. Quem distingue é a cultura, que nos ensina a chamar aquele estado de euforia de “amor” — e não de “dependência”.

O cérebro apaixonado é um órgão que aprendeu a ler. Ele não reage apenas a estímulos químicos, mas a significados. Sem a moldura cultural que valoriza a exclusividade e o sacrifício, a dopamina seria apenas um ruído elétrico sem nome. Fisher tem razão no barro; Damásio, nas mãos que o moldam. A metade que nos torna humanos é a capacidade de transformar química em poesia — e é também a metade que nos permite confundir uma com a outra.

Amor Líquido, Amor Algorítmico

Zygmunt Bauman diagnosticou a nossa era como a do “amor líquido”, onde os laços humanos se tornaram frágeis. O problema contemporâneo, porém, é mais insidioso: o amor tornou-se algorítmico. Vivemos a era da gamificação do desejo. O swipe para a direita é o gesto definitivo do capitalismo tardio aplicado ao afeto: a promessa de que a próxima opção será sempre melhor.

Como Eva Illouz aponta, o sofrimento amoroso hoje decorre do excesso de opções, que gera uma paralisia da vontade. O amor digital revela a contradição que sempre esteve no coração do romantismo: desejamos o absoluto, mas temos pavor de sermos aprisionados por ele. Queremos a segurança do “felizes para sempre” com a porta de saída do “cancelar assinatura” sempre visível.

Amar como Ato Ético

Se o amor é uma invenção, temos a responsabilidade ética sobre o que estamos inventando. bell hooks defende que devemos parar de ver o amor como um sentimento e passar a vê-lo como uma ação. “Amor é o que o amor faz”, escreve ela. É uma ruptura necessária com o pergaminho da paixão passiva, daquela ferida que nos atinge como uma flecha de Cupido.

Psiquê revivida por um beijo do Amor (1787–1793). Antonio Canova.

O amor como ato ético exige a vontade de nutrir o crescimento espiritual próprio e do outro. É o amor de Erich Fromm, que o via como uma arte que exige disciplina. É também o amor de Simone de Beauvoir, que sugeriu que o amor autêntico só é possível entre seres que se reconhecem como iguais e livres. Alain Badiou, em Elogio do Amor, propõe que o amor é um “acontecimento” — uma ruptura que funda o “sujeito a dois”. O amor é uma fidelidade a esse encontro-acontecimento, uma aposta no acaso que se transforma em construção.

As experiências de amor queer têm muito a nos ensinar precisamente porque foram forçadas a inventar onde não havia roteiro. Excluídas dos cerimoniais oficiais — casamento, igreja, bênção familiar —, as comunidades LGBTQ+ criaram o que a antropologia chama de famílias escolhidas (chosen families): redes de parentesco baseadas não no sangue ou no contrato, mas no cuidado ativo e na fidelidade cotidiana. Como mostrou Eve Kosofsky Sedgwick, essa exclusão dos cânones afetivos produziu uma liberdade de reinvenção que o amor heteronormativo muitas vezes desconhece. Se o palimpsesto ocidental sempre escreveu o amor como falta, o amor queer sugere que ele pode ser também invenção deliberada — um ato de montagem, e não de ferida. O amor que liberta exige que renunciemos ao controle e da fantasia de que o outro existe para nos completar.

Coda: O Palimpsesto e a Tinta Fresca

O amor continuará a ser a nossa ficção mais necessária. Não importa quantas vezes a ciência o reduza a hormônios, continuaremos a esperar por mensagens que façam o coração saltar. O pergaminho nunca estará terminado. Cada geração está lançando tinta fresca sobre as velhas rasuras de Tristão, de Safo e de Stendhal. Não estamos escrevendo um amor melhor — estamos escrevendo um amor diferente.

Se o amor é uma invenção, ele é a invenção que nos inventa. Ele nos tira de nós mesmos e nos lança em direção ao outro. Vivemos uma era em que o amor foi simultaneamente libertado e capturado por uma nova grade: a do algoritmo e do mercado de afetos. A tarefa do nosso tempo é redescobrir o que significa amar quando todas as receitas já foram escritas.

Talvez a resposta esteja num gesto tão simples quanto vexatório: cozinhar para alguém que está doente. Acomodar o travesseiro. Levantar-se no meio da noite para buscar um copo d’água. Nada disso está nos trovadores. Nada disso está no Tinder. Mas está ali, na camada mais recente do palimpsesto — a tinta ainda fresca de um amor que não precisa ser lido para ser vivido. O pergaminho espera. E a pergunta que resta não é o que o amor foi, mas que amor queremos ter inventado quando formos apenas a camada de baixo — já coberta por outras vozes que ainda não imaginamos.

REFERÊNCIAS

BADIOU, Alain. Elogio do Amor. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso. Tradução de Márcia Valeria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Tradução de Sérgio Milliet. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

COSTA, Jurandir Freire. Sem Fraude Nem Favor: estudos sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Tradução de Dora Vicente. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FERRY, Luc. A Revolução do Amor: por uma espiritualidade laica. Tradução de Véra Lucia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

FISHER, Helen. A Anatomia do Amor: a história natural da monogamia, do adultério e do divórcio. Tradução de Sofia de Sousa. Rio de Janeiro: Record, 1994.

FROMM, Erich. A Arte de Amar. Tradução de Milton Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 2016.

hooks, bell. Tudo sobre o Amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021.

ILLOUZ, Eva. Por que o Amor Dói? Uma explicação sociológica. Tradução de Sergio Tellaroli. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

PAZ, Octavio. A Dupla Chama: amor e erotismo. Tradução de Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1994.

PLATÃO. O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora 34, 2011.

PROUST, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido. 7 v. Tradução de Fernando Py. São Paulo: Globo, 2013.

ROUGEMONT, Denis de. O Amor e o Ocidente. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: L&PM, 2023.

SAFO DE LESBOS. Fragmentos e Poemas. Tradução de Joaquim Brasil Fontes. São Paulo: Editora 34, 2020.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemologia do Armário. Tradução de Plínio Dentzien. São Paulo: Autêntica, 2007.

STENDHAL (Marie-Henri Beyle). Do Amor. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. Porto Alegre: L&PM, 2015.

WILLIAMS, Raymond. Marxismo e Literatura. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Imagem em destaque: O Nascimento de Vênus (1483). Sandro Botticelli.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

    Eleições e fake news

    Previous article

    Copa 2026: o Mundial de recordes, polêmicas e de confirmação da nova ordem do futebol

    Next article

    You may also like

    Comments