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Quero falar de finitude na reflexão do que se considera infinitude nesta existência. O ser humano idealiza, constantemente, o objeto contínuo e a ideia de infinito dentro de sua própria e inconfessada finitude.  

Mesmo nas especulações dos filósofos pré-socráticos até as formulações matemáticas contemporâneas, o infinito apresenta-se como aquilo que escapa aos limites da experiência, da linguagem e da própria razão. 

No entanto, um paradoxo emerge quando nos perguntamos: seria possível que o próprio infinito possuísse uma forma de finitude? A aparente contradição contida nessa pergunta não busca negar a existência do infinito, mas investigar os limites da maneira como o concebemos.

A finitude, em seu sentido mais comum, refere-se àquilo que possui princípio, duração e término. É a condição inerente aos seres vivos, aos objetos e aos acontecimentos. O infinito, por sua vez, representa a ausência de limites, a continuidade absoluta e a impossibilidade de encerramento. 

Os humanos desde os primórdios idealizaram a continuidade da vida após a morte, buscando a infinitude da finitude, compreendendo pouco, contudo, o que significa infinitude no sentido da existência e inexistência.

À primeira vista, ambos os conceitos parecem mutuamente excludentes. Entretanto, a filosofia frequentemente encontra sua força justamente na tensão entre os opostos. Quando a filosofia da razão iniciou com presença marcante na Grécia, nasceu entre pares de opostos, ou seja, daquilo que aparentemente se opõem, para definir o que seria racionalidade.

O primeiro aspecto da finitude da infinitude encontra-se na própria consciência humana. O infinito só existe para nós enquanto conceito. Nossa mente, inevitavelmente finita, jamais experimenta o infinito em sua plenitude.

Cada tentativa de pensar o infinito transforma-o em uma ideia delimitada pela linguagem, pela lógica e pela imaginação. Dessa maneira, o infinito pensado já não é o infinito absoluto, mas um infinito reduzido às capacidades cognitivas de quem o contempla.

Essa limitação foi percebida de diferentes maneiras ao longo da história da filosofia. Na tradição metafísica, o absoluto é frequentemente considerado inacessível ao conhecimento completo. O ser humano aproxima-se dele por analogias, símbolos ou negações, nunca por apreensão direta. 

O infinito permanece sempre além daquilo que pode ser plenamente conhecido. Sua infinitude manifesta-se justamente por resistir à total compreensão.

Sob uma perspectiva existencial, a finitude da infinitude também revela uma dimensão temporal. A vida humana transcorre em um horizonte limitado de tempo, enquanto o desejo frequentemente se orienta para aquilo que parece ilimitado: conhecimento, felicidade, amor ou transcendência. 

Tenho me perguntado se a existência dos que se foram realmente foi extinta e se com a morte tudo se encerra, lembrando dos entes que tanto queríamos que ainda estivessem conosco. O que realmente se acaba dentro do que chamamos de vida? Somos contínuos, realmente, ou somos limitados? Quando comecei este artigo em uma sexta feira silenciosa, o título seria “A finitude da Infinitude”, mas durante seu desenvolvimento mudei a posição dessas duas palavras misteriosas para “A infinitude da finitude” e nessa colocação terminarei o tema.

Existe uma dimensão ética nesse contexto: O ser humano aspira frequentemente à perfeição, à justiça absoluta ou ao bem universal. Entretanto, toda ação moral ocorre em circunstâncias específicas, condicionadas por limitações históricas, culturais e pessoais. O ideal infinito orienta a ação, mas jamais se realiza plenamente. Sua função talvez não seja alcançar uma conclusão definitiva, mas manter aberta a possibilidade permanente de aperfeiçoamento.

Quando pronunciamos “infinito”, delimitamos semanticamente aquilo que pretendemos afirmar como ilimitado. A linguagem, ao nomear o infinito, simultaneamente o aproxima e o restringe. Não aprisiona o infinito em si, mas limita a forma pela qual ele pode ser comunicado.

Talvez seja precisamente nesse ponto que a expressão “finitude da infinitude” revele seu sentido mais profundo. Não significa que o infinito possua um fim, mas que toda relação humana com o infinito é inevitavelmente finita. 

A finitude da infinitude não é uma contradição insolúvel, mas uma condição essencial da existência humana. O infinito continua sendo horizonte, inspiração e mistério e a finitude, por sua vez, é o espaço onde a reflexão, a criação e a liberdade se tornam possíveis. É justamente porque somos finitos que podemos buscar o infinito. 

Deixo a incógnita para o leitor refletir dentro de seu próprio universo inquietante, pai de tantos prazeres e conflitos que envolvem a existência humana e que insistem em abalar a harmonia da existência. 



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Ernane Malato
Ernane Malato é escritor, poeta e jurista, especialista em Direito Constitucional pela UFPA, mestre em Filosofia do Direito, área de Direitos Humanos pela PUC/SP, professor e pesquisador da Amazônia em diversas áreas sociais e científicas no Brasil e no Exterior, membro das Academias Paraenses de Letras; Letras Jurídicas; de Jornalismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Pará. Exerceu funções de magistrado estadual e atualmente atua como cônsul honorário da República Tcheca na Amazônia.

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