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Para Paulo Oliveira


Ernest Hemingway nasceu em 21 de julho de 1899, em Oak Park, Illinois, nos Estados Unidos. Filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e da musicista Grace Hall Hemingway, cresceu em um ambiente que valorizava tanto a disciplina quanto as atividades ao ar livre. A pesca, a caça e o contato constante com a natureza marcaram sua infância e, mais tarde, tornaram-se elementos recorrentes de sua ficção. Ainda jovem, optou pelo jornalismo em vez da universidade. Em 1917 ingressou no The Kansas City Star, cujo manual de redação recomendava frases curtas, linguagem precisa e observação rigorosa dos fatos. Essa experiência moldou definitivamente sua maneira de escrever.


A Primeira Guerra Mundial alterou profundamente sua visão de mundo. Em 1918, Hemingway serviu como motorista de ambulância da Cruz Vermelha Italiana e foi gravemente ferido por estilhaços durante um bombardeio. A convalescença em um hospital de Milão e o contato direto com a destruição provocada pela guerra deixaram marcas que ultrapassaram a experiência pessoal e passaram a integrar sua literatura. Seus romances raramente descrevem batalhas em tom heroico. O interesse do escritor concentra-se nas consequências psicológicas da violência e na maneira como homens e mulheres tentam reconstruir suas vidas depois que antigas certezas deixam de existir.


Depois da guerra, Hemingway estabeleceu-se em Paris como correspondente estrangeiro do Toronto Star. Na capital francesa conviveu com escritores e artistas que redefiniam a literatura e as artes do início do século XX. Entre eles estavam Gertrude Stein, Ezra Pound, James Joyce e F. Scott Fitzgerald. Stein utilizava a expressão “geração perdida” para definir aqueles que haviam atingido a vida adulta durante a guerra. Hemingway incorporou essa expressão à epígrafe de The Sun Also Rises (1926), transformando-a em um dos símbolos da literatura modernista. A escolha não foi casual. O romance procura compreender uma geração que perdeu referências morais sem oferecer respostas fáceis para esse vazio.


Entre os clássicos do autor estão: O Adeus às Armas (1929), O Velho e o Mar (1952) O Sol Também se Levanta (1926) e Por Quem os Sinos Dobram (1940), além do livro de memórias Paris é uma Festa (1964). O aspecto mais conhecido de sua produção talvez seja a chamada teoria do iceberg. Hemingway acreditava que uma narrativa se fortalece quando o autor conhece profundamente aquilo que escreve, mas revela apenas uma pequena parte ao leitor. Em Death in the Afternoon (1932), ele sintetiza essa ideia ao afirmar que, se o escritor conhece suficientemente bem o assunto, pode omitir elementos e ainda assim permitir que o leitor os perceba. Assim como um iceberg deixa visível apenas uma fração de seu volume, a narrativa apresenta somente aquilo que é indispensável, enquanto os conflitos mais profundos permanecem implícitos. Esse procedimento transformou o silêncio em um recurso narrativo tão expressivo quanto às palavras.


Essa técnica aparece com clareza em “O sol também se levanta” ( The Sun Also Rises). À primeira vista, o romance parece apenas acompanhar um grupo de amigos que frequenta cafés parisienses, viaja à Espanha e participa das festas de San Fermín, em Pamplona. Entretanto, sob essa superfície cotidiana, desenvolvem-se questões ligadas ao trauma da guerra, ao desencanto afetivo e à dificuldade de encontrar sentido em um mundo profundamente transformado. Hemingway evita discursos filosóficos ou análises psicológicas extensas. O leitor descobre os conflitos observando pequenos gestos, conversas interrompidas e mudanças discretas de comportamento.


O protagonista Jake Barnes representa essa geração fragmentada. Ferido durante a guerra, ele carrega uma mutilação que compromete sua vida amorosa com Brett Ashley. Hemingway nunca transforma essa condição em objeto de sentimentalismo. Pelo contrário, a limitação física permanece quase sempre sugerida, obrigando o leitor a compreender seu impacto pelas reações das personagens. Essa escolha narrativa demonstra a confiança do autor na inteligência de quem lê. Em vez de explicar emoções, ele cria situações capazes de despertá-las.


O romance também apresenta uma crítica sutil ao ideal tradicional de masculinidade. Jake, Mike Campbell, Robert Cohn e Pedro Romero representam formas distintas de enfrentar a insegurança, o desejo e a frustração. Nenhum deles corresponde plenamente ao modelo heroico frequentemente associado à literatura de guerra. O comportamento desses personagens revela homens inseguros, emocionalmente vulneráveis e incapazes de controlar completamente o rumo de suas vidas. Essa perspectiva aproxima Hemingway de preocupações que continuam atuais, especialmente nos estudos sobre identidade masculina e trauma.


Entre os momentos mais conhecidos do romance encontra-se o diálogo final entre Jake Barnes e Brett Ashley. Depois de todas as perdas e desencontros, Brett comenta: “We could have had such a damned good time together.” Jake responde apenas: “Yes… Isn’t it pretty to think so?” Em português, a resposta pode ser traduzida como: “Sim… Não é bonito pensar assim?” A force desse encerramento está justamente no que permanece não dito. Jake não alimenta ilusões sobre um futuro impossível. A frase encerra o romance sem oferecer reconciliação, revelando que algumas perdas não podem ser reparadas apenas pela vontade.


O biógrafo Carlos Baker observa que Hemingway procurava construir personagens definidos muito mais pelas ações do que pelas explicações sobre seus sentimentos. Essa característica ajuda a compreender por que tantos leitores inicialmente consideram sua escrita excessivamente simples. A aparente simplicidade esconde um trabalho rigoroso de seleção vocabular, ritmo e estrutura narrativa. Philip Young desenvolveu interpretação semelhante ao relacionar a obra de Hemingway à experiência do “herói ferido”, figura que enfrenta um mundo marcado pela violência sem abandonar completamente seu código de dignidade pessoal. Embora essa leitura tenha sido posteriormente ampliada por outros críticos, ela continua sendo uma referência importante para compreender parte significativa de sua ficção.


O texto, “O Sol Também se Levanta” (1926) significa perceber que Hemingway investiga como indivíduos tentam reorganizar suas vidas quando os valores que sustentavam sua existência deixam de oferecer segurança. Essa pergunta atravessa o século XX e permanece atual. Em uma história marcada por guerras, deslocamentos e crises sociais, a narrativa continua dialogando com leitores de diferentes gerações porque trata menos de um momento histórico específico do que da dificuldade humana de encontrar sentido depois da ruptura.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis é jornalista, escritor e professor, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, com pós-doutorado em Comunicação. Membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Jornalismo, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia.

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