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Confesso ao leitor que tenho acompanhado com atenção a imprensa internacional durante esta Copa do Mundo de 2026. Não o faço apenas por amor ao futebol, essa religião laica que transforma onze homens correndo atrás de uma bola em assunto de Estado, mas também porque os jornais estrangeiros parecem empenhados em oferecer uma curiosa aula de interpretação de texto. E, convenhamos, nunca foi tão necessária. No texto anterior, falamos sobre o esforço diplomático do evento e da proposta multicultural e inclusiva, mas o torneio continua polissêmico e cheio de camadas interpretativas.


À primeira vista, tudo parece simples. Lionel Messi marca gols em idade na qual muitos jogadores já se dedicam a comentar partidas na televisão. Kylian Mbappé corre como se tivesse firmado contrato particular com a velocidade. Cristiano Ronaldo desafia o calendário biológico, considerando a aposentadoria uma grosseria pessoal. Erling Haaland continua distribuindo inquietação às defesas adversárias. Os jornais celebram seus feitos com o entusiasmo habitual das epopeias esportivas. Até aqui, nenhuma novidade. A humanidade aprecia heróis desde os tempos em que Homero transformava guerras em poesia. Fala-se até em um duelo épico entre Messi e Mbappé.


Ocorre, porém, que esta Copa possui um segundo texto correndo paralelamente sob as linhas do primeiro. E é justamente aí que a leitura se torna interessante.


Enquanto os cadernos esportivos descrevem os gols, os cadernos de política descrevem os obstáculos para chegar aos estádios. Enquanto a FIFA exalta a integração entre os povos, surgem reportagens sobre restrições migratórias, dificuldades para obtenção de vistos, controles de fronteira e custos proibitivos para os torcedores. Enquanto os dirigentes falam em uma festa global, muitos potenciais convidados descobrem que o convite não inclui necessariamente o direito de entrada.


É nesse momento que a interpretação de texto se torna indispensável. O texto oficial diz: “a Copa do Mundo une a humanidade.” O subtexto parece acrescentar: “desde que a humanidade tenha visto aprovado, cartão de crédito compatível e capacidade de arcar com tarifas hoteleiras dignas de uma pequena operação financeira.”


Não se trata de contradição, mas de elegante convivência entre duas verdades contemporâneas. Os jornais internacionais têm explorado precisamente essa tensão. De um lado, a ampliação do torneio para 48 seleções é apresentada como símbolo da democratização do futebol mundial. Nunca tantos países participaram. Nunca tantas bandeiras estiveram representadas. Nunca tantas culturas chegaram ao palco principal do esporte. De outro lado, multiplicam-se as reportagens sobre torcedores impedidos por razões econômicas ou burocráticas de acompanhar presencialmente essa celebração da inclusão seletiva.


A ironia é quase literária. A Copa mais global da história acontece em uma época obcecada por controle de fronteiras. O torneio da integração é disputado em meio a debates sobre imigração. A festa da diversidade convive com mecanismos de exclusão econômica cada vez mais sofisticados. Não é preciso grande imaginação para perceber que o futebol está servindo, mais uma vez, como espelho das contradições do mundo.


Talvez por isso os grandes craques desempenhem um papel tão importante na narrativa contemporânea. Eles são personagens capazes de suspender momentaneamente a realidade. Quando Messi marca três gols, os formulários migratórios que negam vistos de argentinos desaparecem da tela. Quando Mbappé acelera em direção ao gol, os preços dos ingressos parecem menos escandalosos e excludentes. Quando Cristiano Ronaldo surge diante das câmeras, as fronteiras tornam-se menos visíveis.


O futebol oferece aquilo que a política raramente consegue oferecer: encantamento. Mas a imprensa internacional tem sido persistente em recordar que os encantamentos não anulam os fatos. E os fatos insistem em reaparecer.


Há quem veja apenas os gols. Há quem veja apenas as controvérsias. Talvez a compreensão desta Copa exija algo mais difícil: enxergar simultaneamente as duas coisas. Compreender que o brilho dos craques é real e que as tensões políticas também são. Entender que a universalidade do futebol não elimina as desigualdades do mundo. Reconhecer que a celebração dos povos pode coexistir com mecanismos de exclusão.


Em outras palavras, esta Copa exige torcida e interpretação de texto. O esforço diplomático corre na superfície, mas devemos assistir ao evento com o ceticismo dedicado a esta Copa “inclusiva”; o ceticismo de quem sempre soube que os seres humanos possuem extraordinária capacidade para afirmar uma coisa e praticar outra sem experimentar grande desconforto moral. A Copa de 2026 tem sido um dos melhores exemplos contemporâneos dessa habilidade.


No gramado, os craques continuam oferecendo ao planeta um espetáculo magnífico. Fora dele, os jornais registram os limites desse mesmo planeta. Entre uma manchete esportiva e outra política, descobre-se que o verdadeiro campeonato não acontece apenas dentro das quatro linhas, mas se desenrola também na disputa entre a promessa universal do futebol e as barreiras muito concretas do mundo real.


Eis a razão pela qual esta Copa merece ser lida com atenção, não apenas assistida, pois é um texto complexo, repleto de camadas, ironias e significados ocultos. Um texto cuja compreensão não depende apenas do ruído do espetáculo e da tabela de classificação, mas da capacidade de perceber aquilo que está escrito nas muitas entrelinhas do campo.


Referências


ASSOCIATED PRESS. Messi leads Argentina in World Cup debut and dominates international headlines. Disponível em: https://apnews.com. Acesso em: 17 jun. 2026.


THE GUARDIAN. World Cup 2026 live coverage: politics, protests and football. Disponível em: https://www.theguardian.com. Acesso em: 17 jun. 2026.


LE MONDE. World Cup 2026: the duel between Messi and Mbappé dominates international coverage. Disponível em: https://www.lemonde.fr. Acesso em: 17 jun. 2026.


WALL STREET JOURNAL. The World Cup stars and the spectacle of 2026. Disponível em: https://www.wsj.com. Acesso em: 17 jun. 2026.


AMNESTY INTERNATIONAL. Global FIFA and World Cup hosts must prevent tournament becoming a threat to fans and communities. Disponível em: https://www.amnesty.org. Acesso em: 17 jun. 2026.


COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. The U.S. is co-hosting the World Cup, but much of the world can’t attend. Disponível em: https://www.cfr.org. Acesso em: 17 jun. 2026.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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