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Por que é tão difícil imaginar a paz

Em algum lugar do mundo, nesta tarde, uma cidade está em chamas. Amanhã saberei o nome dela: a manchete o dirá, repetiremos o nome por alguns dias, e depois voltaremos ao silêncio, esse idioma em que a paz é escrita e do qual nunca se faz manchete. A guerra tem a pressa de quem sabe que vai morrer; a paz, a lentidão de quem acredita que vai viver.

Chamamos a guerra pelo nome, com a frieza de um inventário: estratégia, cerco, massacre, genocídio. Para a paz, sobrou o vocabulário da negação: ausência de bombas, silêncio dos canhões, o vazio que os exércitos deixam. Conjugamos a paz no futuro do pretérito: teria sido, se não fosse. Essa definição pela via negativa tem uma ingenuidade perigosa. Ela trata a paz como vácuo, como o intervalo entre duas catástrofes; esquece que a paz é um trabalho coletivo, renovado todos os dias — justiça, dignidade, ordem e reconciliação são a sua matéria. E esquece o essencial: o que não fascina raramente é imaginado. A guerra tem drama, heróis, reviravoltas, glória, música épica. A paz tem comitês, relatórios de impacto, reuniões de condomínio.

Lembro-me de uma manhã de aula, ainda criança, em que a professora pediu que desenhássemos a paz. Eu sabia desenhar guerra: fogo, tanques, aviões — a guerra ocupa o papel com facilidade. A paz me deixou diante da folha em branco até o sinal tocar, até que copiei as três imagens que me ensinaram a associar ao tema: um sol, uma casa, uma pomba. A pomba saiu torta; a professora pendurou o desenho no corredor assim mesmo, ao lado dos tanques dos meninos. Ninguém me ensinou a desenhar a paz; ensinaram-me a desenhar a sua ausência. Não é por falta de inteligência que não conseguimos imaginá-la: é por falta de fascínio e de vocabulário próprio.

A tese deste ensaio é simples, e levou séculos para ser aprendida: a paz só se torna possível quando primeiro se torna imaginável. A história do pensamento, nesse ponto, é a história de uma imaginação obstinada — cada época tentou dar à paz uma figura tão viva quanto as que a guerra jamais deixou de fabricar. Santo Agostinho a ouviu como música:tranquillitas ordinis, a tranquilidade da ordem. Mas, muito antes dele, Aristófanes já a imaginara com mãos e cordas. É o que ele põe em cena em A Paz (421 a.C.): a deusa Eirene jaz sepultada num poço; camponeses e artesãos a puxam de volta à luz, enquanto os fabricantes de armas puxam no sentido contrário. A paz não volta por desejo nem por oração — volta pelo esforço coordenado de quem disputa com os que lucram com a guerra. Em Lisístrata, Aristófanes deu o passo seguinte: mulheres interrompem uma guerra que não foram chamadas a decidir. Quem não controla a guerra pode, ainda assim, recusar-se a alimentá-la.

Erasmo completou o gesto. A deusa desenterrada ganhou, enfim, uma voz. No Lamento da Paz, ela deixa de ser conceito ou estado para se tornar uma mulher exilada, de vestes esfarrapadas, que perambula pela Europa implorando aos príncipes cristãos que parem de se matar entre si. Pela primeira vez, a paz chora em primeira pessoa.

Hobbes, escrevendo sob o impacto da Guerra Civil Inglesa, respondeu com a nota oposta: silêncio. O silêncio do medo. “A vida do homem”, escreveu, “é solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. Para ele, a paz não se imagina; impõe-se. A paz hobbesiana é uma ordem a que se obedece, não uma casa que se habita — o soberano absoluto compra a segurança com a liberdade, e quem o contesta devolve o mundo à guerra de todos contra todos. Hobbes não era um arquiteto da paz; era o cético que a paz precisava ouvir.

Locke, meio século depois, fundou a outra linhagem. Para ele, a paz nasce do consentimento, não do medo: o governo legítimo é o que os governados aceitam, e a liberdade — não a submissão — é a matéria da ordem. É dele, não de Hobbes, que desce a paz que este ensaio procura: Kant a levou ao Direito das nações, e, séculos depois, um pastor negro da América segregada a levaria à mesa comum — Martin Luther King, de quem falaremos.

Kant fez o movimento seguinte: tirou a paz das lágrimas e a colocou no rigor do Direito. À Paz Perpétua é a tentativa mais ambiciosa de conceber a paz como constituição — uma federação de nações livres, um direito cosmopolita da hospitalidade, uma assembleia em que ninguém ergue a voz para ameaçar porque todos ergueram a mão para deliberar. Kant não foi ingênuo; apenas acreditou que uma cláusula bem redigida pesa mais do que um tanque.

O século XX tratou de desmentir Kant — e, com ele, todos os arquitetos da paz. Auschwitz, Hiroshima, Ruanda, Srebrenica: os tratados proibiam tudo aquilo e não impediram nada, e a lista de lugares que o comprovam não para de crescer. Segundo o Programa de Dados sobre Conflitos de Uppsala, o mundo fechou 2025 com o maior número de conflitos armados desde o início da série histórica, e as guerras entre Estados dobraram pelo segundo ano consecutivo — o nível mais alto desde a Segunda Guerra Mundial. A invasão em grande escala da Ucrânia segue no quinto ano: um membro permanente do Conselho de Segurança bombardeia outro país, e o Conselho não pode fazer nada porque o agressor detém o veto. Em Gaza, um cessar-fogo frágil, violado de ambos os lados, mantém a Faixa em ruínas. No Sudão, a guerra civil matou dezenas de milhares e deslocou milhões; quase ninguém fora da África parece notar. Em Myanmar, os tanques da junta avançam enquanto a ASEAN negocia, pacientemente, o nada. No Iêmen, na República Democrática do Congo, no Sahel, as guerras prosseguem sem manchete.

Mas este ensaio, percebo agora, é também um inventário: arquitetos, tratados, conceitos — dei-lhes nomes e não lhes dei rosto. A mesma frieza que censurei na guerra, eu a pratiquei para falar da paz. O que faltava não era outra ideia, era outra matéria: alguém que construísse a paz com as mãos, dia após dia, sem música épica.

A paz é o único sistema social que funciona sem que ninguém note — e só defendemos o que conseguimos imaginar.

Dag Hammarskjöld transformou a secretaria-geral da ONU em instrumento de mediação: desenvolveu as operações de manutenção da paz, negociou crises que poderiam ter virado guerras e morreu num acidente de avião a caminho do Congo. Ele sabia que a paz não é uma promessa abstrata: é trabalho administrativo, mediação paciente, legitimidade construída a cada dia. Frágil, imperfeita, sempre à beira do fracasso, a paz institucional é, ainda assim, tudo o que temos entre a diplomacia e o apocalipse.

O sociólogo Johan Galtung deu nome ao que faltava. Distinguiu a paz negativa — a mera ausência de violência direta, o cessar-fogo que não cura feridas — da paz positiva, a presença de justiça social, equidade e integração humana. Não basta que os canhões se calem; é preciso que as escolas funcionem, que os hospitais atendam, que a feira volte a encher, que as crianças não morram de fome. À violência que dispensa armas, Galtung chamou de violência estrutural: ela está embutida nos sistemas e mata lentamente, por inanição, por falta de acesso, por exclusão deliberada. Mais de oitocentos milhões de pessoas vivem na extrema pobreza; a fome endêmica, a mortalidade infantil evitável, o analfabetismo são formas dessa violência que não exige exércitos, apenas a indiferença de quem lucra com a ordem existente. Uma paz que se contenta em manter o status quo é, como advertia Paulo Freire, uma falsa paz — a paz dos cemitérios, onde os mortos não reclamam.

A violência que dispensa exércitos também tem endereço, e um deles é o Brasil — de onde escrevo. O país não está em guerra com ninguém — e, mesmo assim, quase oitenta mil corpos por ano. Sem declaração de guerra, sem inimigo nomeado, sem um único tratado a violar: uma cidade média desaparece a cada doze meses, e não sai manchete. Boa parte dessas mortes tem assinatura: as facções que disputam o tráfico com a lógica territorial dos exércitos, mas sem convenções que as incomodem. E o vocabulário da negação volta a trabalhar: a isso chamamos segurança pública, não guerra; acidente, não assassinato; mercado, não ocupação. A paz, no Brasil, não é a trégua entre duas guerras — é o nome que damos à rotina que as fabrica.

No fim do século, a arquitetura tentou um novo começo. A ONU proclamou o ano 2000 como Ano Internacional da Cultura de Paz, e um grupo de laureados com o Nobel redigiu, a pedido da UNESCO, o Manifesto 2000: seis compromissos individuais — respeitar toda a vida, rejeitar a violência, partilhar com generosidade, escutar para compreender, preservar o planeta, redescobrir a solidariedade. Seis verbos no imperativo, dirigidos a ninguém em particular e, portanto, a todos. A novidade não estava nas palavras, e sim no endereço: o Manifesto não cobra nada dos governos; cobra tudo de cada um. A paz deixa de ser um tratado que se assina e passa a ser uma competência que se treina.

Wangari Maathai não esperou que a UNESCO o assinasse por ela. Ela tornou a paz concreta plantando árvores — e descobriu que plantava democracia. O Green Belt Movement juntou mulheres para restaurar o solo, defender o espaço público e reivindicar participação política; para elas, a paz era solo, água, meios de subsistência e a coragem de dizer não à destruição do que sustenta a vida. Maathai sabia que a paz não nascia apenas dos tratados; nascia da coragem de transformar a dor em gesto público.

Resta, porém, uma pergunta que o pacifismo nunca respondeu bem — e não pretendo respondê-la aqui: funciona contra inimigos que não têm consciência moral para ser despertada? Gandhi enfrentou um império que, embora ainda vasto, saía exaurido de duas guerras mundiais; o verdadeiro teste é contra um império que ainda tem fome — e o século XXI impõe esse teste. Os nomes mudam, os rostos se alternam — caem nas urnas ou nas ruas — mas a lógica que os alimenta permanece intacta: uma geração de líderes que trata os tratados internacionais como papel, as organizações multilaterais como obstáculos a contornar e a guerra como instrumento legítimo de política externa.

Mandela enfrentou o teste e passou. Vinte e sete anos de prisão sem transformar a libertação dos oprimidos em humilhação dos opressores; uma transição que evitou a guerra civil. Mais do que qualquer tratado, foi ele quem tornou a paz imaginável para uma nação inteira: negociou com os próprios carcereiros, vestiu a camisa da seleção de rugby — a número 6, de François Pienaar —, submeteu o país à Comissão de Verdade e Reconciliação — a paz, para ele, não era uma trégua a ser assinada, mas uma casa a ser habitada por todos. Mas a África do Sul segue o país mais desigual do mundo: ele venceu o apartheid; não venceu a pobreza.

Camus lembra que a não-violência não é uma pureza moral, mas uma decisão difícil, tomada a cada vez, de não deixar que o ódio ao opressor nos transforme no que odiamos.

Luther King ofereceu a imagem do passo seguinte: a Comunidade Amada é uma mesa, antigos inimigos partilhando o pão.

John Lennon traduziu tudo em música — mas Imagine constrói a paz pela subtração: sem fronteiras, sem posses, sem dogmas. Não há mesa comum; há apenas o vazio das subtrações — uma paz de domingo, sem compromissos. A de King — e a de Kant — é de segunda-feira: exige leis, tribunais, escolas, gente que discorda e permanece à mesa. Preferimos a primeira porque ela não nos cobra nada; adiamos a segunda porque ela nos convoca a tudo.

Hobbes oferece a objeção final: de que serve imaginar a paz como mesa comum se o coração permanece movido pela competição? A imaginação, sozinha, não institui a paz — a mesa de King não existiria sem as leis de direitos civis; a assembleia de Kant não funciona sem a polícia que impede o mais forte de tomar a palavra. Mas o erro de Hobbes foi acreditar que o medo bastaria: as sociedades que conhecem apenas a paz do carcereiro aprendem, cedo ou tarde, que nenhuma cela é alta o bastante para conter o ódio que a própria sociedade alimenta. A imaginação não substitui as instituições — ela as precede e as anima. De Hobbes, fica a advertência; de Locke, de Kant e de King, o projeto. A paz que existe e dura não é a do medo: é a do consentimento, a do direito e a da mesa comum.

Enquanto essa imagem não for tão nítida quanto as da guerra, continuaremos a confundir paz com trégua — e a chamar de paz o silêncio que antecede o próximo ataque.

Mas a imaginação se educa. Nenhum tratado se impõe à força; uma imagem, ao contrário, aprende-se, repete-se, transmite-se, de mãe para filha, de mestre para aprendiz. Todos os dias, a guerra treina seus soldados. A paz pode treinar os seus.

A pomba da minha infância saiu torta, e a professora a pendurou no corredor assim mesmo, ao lado dos tanques dos meninos. Durante anos acreditei que aquela pomba fosse um fracasso meu. Era o contrário: eu estava aprendendo a desenhar a paz. Desenhei uma casa sem saber que já era arquitetura — a arquitetura da serenidade, que não se ergue num dia, que se aprende repetindo e que, como a pomba, começa torta.

No fim, a questão não é se somos capazes de imaginar a paz. É se vamos praticá-la amanhã de manhã, e no dia seguinte, até que o padeiro abra a porta, as crianças vão à escola, uma criança desenhe uma pomba torta e ninguém ache que isso é apenas uma cena de ficção.

Referências:

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* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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