Publicado em: 10 de setembro de 2026
Praticamente todo mundo que viveu as eleições de 2018 sofreu alguma ruptura familiar e/ou afetiva por causa de discordâncias políticas. Portanto, não impressiona o dado de que quase metade do país, hoje, prefere calar sobre política dentro de casa. Em levantamento divulgado nesta semana, 47% das eleitoras e eleitores brasileiros afirmam já ter deixado de comentar sobre política ou de declarar o voto para evitar conflito familiar.
Entretanto, “curiosamente”, 22% dos homens consideram aceitável tentar convencer insistentemente sua companheira a mudar o voto, o que representa mais que o dobro do índice registrado entre as mulheres, que é de 10%.
Os números são da pesquisa Misoginia no voto, realizada pela Hibou Pesquisas e Insights para a plataforma Red é de Sangue, com 1.449 eleitoras e eleitores ouvidas em painel digital entre 1º e 4 de setembro de 2026, margem de erro de 2,5%. A amostra se divide em 49% de respondentes do gênero masculino, 49% do feminino e 2% de outros gêneros. O estudo tem apoio do HeForShe, movimento global da ONU Mulheres, do Sindilegis e do Grupo MEMOH.
A pesquisa foi divulgada a menos de dois meses das eleições de outubro, num ciclo em que as mulheres são 52,8% do eleitorado, 83,9 milhões de um total de 158,7 milhões de pessoas aptas a votar, e respondem por 34,8% das candidaturas registradas, 7.134 de 20.496, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. Na disputa presidencial, são apenas duas mulheres entre 13 candidaturas.
Diante da pergunta sobre insistir para que a pessoa parceira mude o voto, 43% dos homens respondem que a conduta é inaceitável. Outros 35% dizem que depende, e 22% acham aceitável. Entre as mulheres, 59% classificam a insistência como inaceitável, 31% respondem que depende e 10% consideram aceitável.
Quando a pergunta muda de convencer para impedir, 80% da população considera que é inaceitável tentar proibir a pessoa parceira de votar em determinada candidatura, com 79% entre os homens e 80% entre as mulheres.
Quando o pedido chega, a resposta majoritária é ouvir sem obedecer. Consideram a opinião da pessoa parceira mas decidiriam sozinhas 63% das eleitoras e eleitores. Outras 17% respondem que não mudariam o voto de jeito nenhum, sendo 21% entre as mulheres e 14% entre os homens. E 3% escolheriam a saída silenciosa, mentindo sobre em quem votaram para evitar briga, com 5% entre os homens e 1% entre as mulheres.
67% das pessoas ouvidas dizem já ter votado em candidatura diferente da que a pessoa parceira queria.
Perguntadas se cônjuges devem sempre votar na mesma candidatura, 73% respondem que não. Sobra, porém, mais de um quarto de ambiguidade. Outros 9% acham que sim e 18% dizem que depende. Entre as mulheres, a ambiguidade é maior, com 24% respondendo que depende, contra 12% dos homens.
Sobre quem deveria ter mais peso na decisão de voto dentro de um casal, 79% apontam a própria pessoa e 20% defendem decisão conjunta. Nenhuma pessoa ouvida respondeu que o peso maior caberia à pessoa parceira. Em outra pergunta, 15% concordam que o casal deve decidir junto e votar igual, com 19% entre os homens e 12% entre as mulheres.
A autonomia é afirmada com folga quando enunciada como princípio. Concordam totalmente que o voto de uma mulher pertence só a ela, independentemente da opinião do parceiro ou da família, 83% da população, sendo 87% das mulheres e 78% dos homens. Ainda assim, 13% dos homens discordam total ou parcialmente da frase.
O discurso que sustenta a pressão circula há tempo suficiente para ter virado lugar-comum. Dois terços da população, 67%, já ouviram alguém dizer que uma mulher “não sabe votar” ou “vota com o coração”.
Diante da afirmação de que mulheres são mais emocionais e que isso pode atrapalhar suas decisões políticas, 25% dos homens concordam total ou parcialmente, sendo 24% de concordância parcial e 1% de concordância total. Entre as mulheres, a adesão é de 12%. No total, 19% da população concorda, e 64% discordam totalmente.
Quando a afirmação inverte o polo e sustenta que homens são mais centrados e votam melhor do que mulheres, 20% dos homens concordam parcialmente, contra 8% das mulheres. Ninguém concorda totalmente.
Já na pergunta sobre quem pesquisa mais antes de votar, 54% respondem que ambos igualmente. As respostas seguintes se dividem por gênero de forma expressiva, com 37% das mulheres apontando as mulheres, contra 7% dos homens que fazem a mesma escolha.
Entre os homens ouvidos, 98% afirmam que homens e mulheres têm a mesma capacidade de avaliar candidaturas e propostas políticas, e nenhum respondente marcou a opção de que homens seriam mais capazes. A camada seguinte da pesquisa desmonta a primeira resposta.
Perguntadas se uma mulher que expressa opinião política forte é mais chamada de “histérica”, “emocional” ou “desequilibrada” do que um homem na mesma situação, 70% das mulheres respondem que sim. Entre os homens, 28% reconhecem o duplo padrão, 42% negam que ele exista e 30% dizem não saber.
O desencontro se repete na percepção do tratamento cotidiano. Enquanto 72% das mulheres afirmam que homens e mulheres não são tratados da mesma forma quando expressam opiniões políticas diferentes, entre os homens o índice cai para 44%.
E quando o assunto é a exposição ao conteúdo misógino, 62% das mulheres disseram que já viram nas redes sociais publicações afirmando que mulheres não deveriam votar ou que são facilmente manipuláveis. Entre os homens, 33% relatam ter visto algo parecido.
O mesmo vale para o reconhecimento do fenômeno como fenômeno. Acreditam que existe hoje um movimento que tenta desestimular ou deslegitimar o voto das mulheres 59% das mulheres e 35% dos homens. Entre eles, 44% respondem que esse movimento não existe.
O comportamento eleitoral acompanha essa assimetria. Levam em consideração falas ou posições machistas de uma candidatura na hora de votar 72% do eleitorado, com 80% entre as mulheres e 63% entre os homens. Dizem que não levam em conta 23% dos homens, contra 9% das mulheres, e outros 14% dos homens respondem “às vezes”. Mais de um terço do eleitorado masculino, portanto, deixa o machismo passar, total ou parcialmente.
O critério fica ainda mais nítido na comparação entre históricos. Deixariam de votar em uma candidatura com histórico de violência contra a mulher 89% do eleitorado. Quando o histórico é de corrupção, o índice sobe para 96%. Nepotismo, 78%.
A diferença se concentra entre os homens. Diante de uma candidatura com histórico de violência contra a mulher, 83% deles deixariam de votar e 12% não deixariam. Diante de uma candidatura com histórico de corrupção, 98% deixariam de votar e nenhum respondente do gênero masculino disse que manteria o voto. Entre as mulheres, o percentual que manteria o voto em quem tem histórico de violência contra a mulher é de 1%.
“É a misoginia do voto, um conjunto de crenças enraizadas e normalizadas que permeiam movimentos contra o voto feminino nas redes sociais, encabeçados por influenciadores ‘Red Pill'”, afirma Ligia Mello, CSO da Hibou e coordenadora da pesquisa.
A referência aos influenciadores não é retórica. Pesquisa do DesinfoPop, laboratório da Fundação Getulio Vargas, analisou cerca de 7 milhões de conteúdos publicados em 85 grupos de Telegram desde 2015. Em 18 desses grupos, 87% das mensagens que tratavam do voto feminino pediam a supressão do direito, com frases como “voto feminino foi o pior erro da humanidade”. O estudo é assinado por Julie Ricard, Mario Aquino Alves e Ergon Cugler.
Para Ricard, o volume preocupa menos que a ausência de contraditório. A pesquisadora aponta a unanimidade de opinião dentro desses grupos como o dado mais grave e observa que o argumento contra o sufrágio feminino não é novo, surpreende por ainda estar em uso.
O levantamento identifica dois pilares no discurso. O primeiro essencializa a biologia, atribuindo às mulheres excesso de emoção e desequilíbrio, e conclui daí uma suposta inaptidão política, a mesma premissa que 25% dos homens ouvidos pela Hibou subscrevem. O segundo é abertamente instrumental, alegando que mulheres votam mais à esquerda e que isso, por si só, seria um problema.
Esse segundo pilar tem lastro em dados. Levantamento do Datafolha realizado em 17 e 18 de junho de 2026, com 2.004 eleitoras em 139 municípios e margem de erro de dois pontos percentuais, mostra que 44% das mulheres se posicionam à esquerda ou centro-esquerda, contra 37% à direita ou centro-direita. Entre os homens, a proporção se inverte, com 50% à direita ou centro-direita e 33% à esquerda ou centro-esquerda.
A escalada tem registro fora das redes também. A SaferNet Brasil recebeu 8.728 denúncias de misoginia e violência contra a mulher em 2025, contra 2.686 em 2024. A alta de 224,9% foi a maior entre todas as categorias monitoradas pela entidade, que somou 87.689 denúncias no ano, crescimento de 28,4% em relação ao período anterior.
A Agência Brasil registra que os termos que organizam essa linguagem já circulam com significado próprio. Redpilldescreve homens que dizem ter despertado para uma realidade em que as mulheres manipulariam e explorariam os homens, e que pregam a retomada do domínio masculino. Incel abrevia “involuntary celibate”. Machosfera nomeia o conjunto de fóruns, canais e grupos dedicados à masculinidade tóxica.
Em 30 de junho de 2026, numa transmissão ao vivo em seu canal no YouTube, o comentarista Paulo Figueiredo afirmou que “mulher vota estatisticamente muito mal”, com ênfase nas solteiras, sem apresentar pesquisa ou estudo que sustentasse a frase. Neto do último presidente da ditadura militar, Figueiredo vive nos Estados Unidos e é investigado pelo Supremo Tribunal Federal.
Em julho, a influenciadora Pietra Bertolazzi declarou-se contra o voto feminino e contra o feminismo em vídeo que viralizou, conforme reportagem da Agência Pública. A mesma reportagem mostra que Figueiredo classificou como “genialidade” a fala de Jair Bolsonaro contra a deputada Maria do Rosário, em 2014.
O Partido Missão, derivado do Movimento Brasil Livre, defende no chamado Livro Amarelo a ideia de “democracia familiar”, e a liderança Orlando Lima escreve sobre renda básica condicionada à renúncia voluntária ao direito de voto.
A referência é estadunidense. Em agosto de 2025, o pico de mensagens contra o sufrágio feminino nos grupos monitorados pela FGV veio depois que Pete Hegseth, secretário de Guerra dos Estados Unidos, compartilhou vídeo do pastor Doug Wilson defendendo o fim da 19ª Emenda, que garantiu o voto às mulheres estadunidenses em 1920. O supremacista branco Nick Fuentes, recebido por Donald Trump, já afirmou que revogaria o direito.
O vocabulário, no entanto, é antigo. Em 1887, ao discursar contra o sufrágio feminino no Senado estadunidense, George Vest sustentou que mulheres “são essencialmente emocionais” e que o voto delas seria um “sufrágio emocional”. É a mesma premissa que uma em cada quatro pessoas do sexo masculino ainda subscreve no Brasil de 2026, segundo a Hibou.
A legislação brasileira tipifica parte dessa conduta desde 2021. A Lei 14.192 define violência política de gênero e prevê pena de um a quatro anos de reclusão.
Em Primavera, no nordeste parauara, Elton Carlos do Nascimento da Silva foi condenado a dois anos de reclusão e 20 dias-multa por ofensas misóginas dirigidas à vereadora Maxilene do Socorro Loureiro de Almeida em transmissões ao vivo no Facebook. O Tribunal Regional Eleitoral do Pará confirmou em julho de 2025 a sentença proferida em agosto de 2024, ao entender que as falas buscavam constranger a parlamentar e dificultar o exercício do mandato, reforçando estereótipos de gênero. A pena de reclusão foi substituída por prestação de serviços à comunidade.
No Congresso, o PL 896/2023, da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), inclui a misoginia na Lei do Racismo e prevê pena de um a três anos. O texto foi aprovado no Senado em 24 de março de 2026 por 67 votos a zero e seguiu para a Câmara, onde o regime de urgência passou em 1º de julho por 293 a 158, com Partido Liberal, Novo e Missão orientando voto contrário, conforme a Agência Pública.
O Red é de Sangue reúne conteúdos educativos, tutorial para denúncia de ódio online e acesso a grupos de reflexão, e disponibiliza o levantamento na íntegra para download.
“A misoginia não vive só nas redes. Ela está na forma como o voto da mulher ainda é tratado como assunto coletivo, como algo a ser negociado ou convencido. Comunicação é nossa ferramenta de enfrentamento, e esses dados mostram por que ela ainda é urgente”, afirma Ana Beatriz Schauff, CEO da Fresh PR e idealizadora da plataforma.
Acesse os dados da pesquisa aqui.










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