Vicente Malheiros da Fonseca

Desembargador Federal e ex-Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, Músico, Compositor, Poeta, Professor e Escritor

Valsas Santarenas

Desde que me entendo como gente, vejo-me tocando piano, sob a orientação de meu pai (Wilson Fonseca, Maestro Isoca), que me despertou o gosto pela música.

Papai me dizia que, quando muito criança ainda, eu gostava de ouvir Chopin (1810-1849), principalmente as suas belas valsas. Sempre tive uma predileção, que vem desde aquela época, pela música do balé “Les Sylphides”, peça orquestral extraída de obras para piano do gênio polonês (prelúdio, noturno, mazurcas, polonaise e valsas), com arranjos de diversos compositores (Alexander Glazunov, Roy Douglas e outros). Com meu pai e em companhia de meus irmãos Conceição e Agostinho Neto executamos peças para piano a 4 mãos, em Santarém, na década de 50 do século XX, notadamente em recitais no Centro Recreativo.

Foi ainda com tenra idade que escrevi a minha primeira composição, a que dei o título de “Experimentar”, em 1958, e dediquei ao meu tio Wilmar Fonseca, autor da letra da “Canção de Minha Saudade”, com música de Wilson Fonseca. Até hoje guardo a partitura daquela “relíquia”.
Nem a propósito, alguns anos depois (1962-1963), fui morar com meu tio Wilmar, em São Paulo, onde estudei no Conservatório Musical “Padre José Maurício”, dirigido pelas Professoras Rachel e Gioconda Peluso, santarenas. Foi ali que mantive contatos com obras do paulista Francisco Mignone e do amazonense Arnaldo Rebello, os quais tive o privilégio de conhecer pessoalmente.

De volta a Santarém, em 1964, organizei o conjunto musical “Tapajoara”. Nessa ocasião, eu tocava trombone de piston e barítono. No ano seguinte, dirigi o quarteto vocal “Os Tapajônicos”. E até 1966 integrei a Banda Marcial do Colégio “Dom Amando”, executando barítono. Na mesma época, fiz parte da Banda de Música “Prof. José Agostinho”; e toquei teclado digital num conjunto musical criado pelo Odilson Matos (“Os Hippies”) e no “cast” do programa de calouros promovido pela Rádio Rural, dirigido pelo Ércio Bemerguy (“Domingo Após a Missa”), na Casa Cristo-Rei.

Essas atividades contribuíram para a minha formação musical, ao lado dos estudos da música erudita e do gosto que sempre tive pelo choro, samba, bossa-nova (Tom Jobim, Chico Buarque e outros).

Em 1967 vim para Belém cursar Direito, na Universidade Federal do Pará. Fui jurado em festivais de música promovidos pela Faculdade de Direito e pela Casa da Juventude, onde morei quando universitário. Participei de concursos de composição. Entretanto, sempre mantive estreitas ligações com Santarém, onde ajudei a organizar o 1º Festival de Música do Baixo Amazonas (1970). No dia de minha colação de grau em direito (1971), eu estava participando de um festival estudantil. Em 1972 atuei na famosa “Semana de Santarém”, nesta capital, onde me apresentei, pela primeira vez, no Theatro da Paz, em companhia de amigos e parentes, tocando piano, violão e até cantando. Na ocasião, foi executada a peça “Acalanto”, de minha autoria, interpretada pelo Madrigal e Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Pará.

Esse vínculo com a terra querida despertou-me a vocação de compositor. Embora residindo em Belém, muitas de minhas composições foram feitas na “Pérola do Tapajós”, na casa de meus pais, onde eu passava deliciosas férias. Ah! Aqueles pianos, aquelas paisagens, aquele clima mocorongo…
Em 1973 ingressei na magistratura trabalhista, numa época em que a Justiça do Trabalho da 8ª Região tinha jurisdição sobre toda a Amazônia, do Pará ao Acre. E por motivos profissionais, funcionei, como magistrado, em diversas cidades desta imensa Região Norte do Brasil.

A música, porém, sempre foi a minha grande paixão, além de minha família.

Compositor desde, pelo menos, 1958 (lá se vão 59 anos, quem diria…), escrevi peças musicais em diversos lugares onde morei ou estive apenas de passagem. Já são mais de 1.000 obras, em diversos gêneros.

A grande maioria de minhas composições foi elaborada em Santarém e em Belém. Mas lembro-me de que também já compus músicas nas cidades de Boa Vista (RR), Manaus, Macapá, Abaetetuba, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Campos do Jordão, Florianópolis, Bonito (MS), Fortaleza, Marabá etc., até no exterior, como Madrid (Espanha), Lisboa (Portugal), Lyon e Chamonix – Mont-Blanc (França). Cheguei até a iniciar uma composição numa cidade, prosseguir na outra e concluir numa terceira.

Por exemplo, a “Valsa Santarena nº 62” foi composta em Marabá, onde estive para proferir a conferência de abertura no Seminário “Os novos rumos do processo do trabalho diante das reformas constitucional e processual civil”, em outubro de 2007, promovido pela Escola da Magistratura da Justiça do Trabalho da 8ª Região e Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região. A esta valsa dei o subtítulo de “Itinerante”, por sugestão da servidora Karla Paes, Assessora em meu Gabinete, no TRT-8.

Falarei, então, um pouco mais sobre a série de “Valsas Santarenas”.
Por muitos anos venho compondo a série de “Valsas Santarenas”, inspiradas na minha terra natal, destinadas a piano solo, mas com alguns arranjos camerísticos, inclusive violão, flauta, e uma para coro e orquestra.

Meu pai fez a transcrição das primeiras vinte valsas para violino solo.
A primeira “Valsa Santarena” foi composta, com esse título, em 1981, em Santarém. Mas eu incorporei à coletânea outras que eu havia composto desde 1972.

Diversas “Valsas Santarenas” possuem letras, todas elaboradas por mim: 33, 42, 47, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 59, 61, 62, 68 e 94 (algumas com subtítulos).

Não nego que, ao compor as “Valsas Santarenas”, sofri influências de meu avô José Agostinho da Fonseca (valsa “Tapajônia”), de meu pai (“Pérola do Tapajós” e outras), de Francisco Mignone (“Valsas de Esquina”) e de Arnaldo Rebello (“Valsas Amazônicas”).

Assim como o compositor paulista Francisco Mignone tem as suas “Valsas de Esquina” e o músico amazonense Arnaldo Rebelo, as suas “Valsas Amazônicas”, eu venho compondo uma série de “VALSAS SANTARENAS”, desde a década de 70 do século passado.

Atualmente, a coletânea abrange 109 peças (setembro/2017).

Certa vez, quando esteve em Belém, por volta de 1985, a Profª Rachel Peluso, compositora paraense, que vivia em São Paulo (já falecida), solicitou-me, para exame, algumas dessas “Valsas Santarenas” (1 a 24). Pouco tempo depois, ela enviou-me uma carta, com a devolução das partituras das valsas. Nessa oportunidade, a saudosa musicista santarena fez não apenas uma abalizada análise daquelas minhas composições, como também sugeriu diversos “subtítulos” para cada música.

Rachel Peluso recomendou que a série daquelas 24 Valsas Santarenas fosse reunida sob o título de “Coleção Santarena”. Ela revelou-me que os subtítulos foram inspirados após ela própria tocar, ao piano, cada uma dessas “Valsas Santarenas”, quando pôde melhor sentir o espírito e o clima de cada composição.

É oportuno confessar que guardo com muito carinho esse “tesouro”, que considero uma verdadeira “relíquia”, porque se trata de material escrito do próprio punho, pela querida e saudosa amiga, compositora e conterrânea, sobre os manuscritos de minhas composições.

Ela ainda sugeriu a colocação de alguns pedais e outros sinais de dinâmica para as peças, haja vista o seu propósito e dedicação no sentido de aperfeiçoar as composições de seu ex-aluno.

Eis a relação das citadas composições (24 primeiras “Valsas Santarenas”) de minha autoria, anotadas pela Profª Rachel Peluso e com os subtítulos por ela sugeridos: Valsa Santarena nº 1 – “Praia dos Namorados”; Valsa Santarena nº 2 – “Revoada das Garças”; Valsa Santarena nº 3 – “Rio Tapajós dos Meus Sonhos”; Valsa Santarena nº 4 – “Saudosa Vera-Paz”; Valsa Santarena nº 5 – “Eterno Bailado dos Rios, Tapajós e Amazonas”; Valsa Santarena nº 6 – “Formosa Tapúia”; Valsa Santarena nº 7 – “Vitória-Régia”; Valsa Santarena nº 8 – “Seresta do Caboclo”; Valsa Santarena nº 9 – “Gorjeio do Jurutaí”; Valsa Santarena nº 10 – “Ilha Encantada”; Valsa Santarena nº 11 – “Sinfonia das Matas Selvagens”; Valsa Santarena nº 12 – “Noite de Luar”; Valsa Santarena nº 13 – “Coração Saudoso”; Valsa Santarena nº 14 – “Céu de Estrelas”; Valsa Santarena nº 15 – “Encontro das Águas”; Valsa Santarena nº 16 – “Meu Violão”; Valsa Santarena nº 17 – “Flores Silvestres”; Valsa Santarena nº 18 – “Em Cada Coração, Saudade de Santarém”; Valsa Santarena nº 19 – “O Canto da Mocoronga”; Valsa Santarena nº 20 – “Alvorada da Floresta Amazônia”; Valsa Santarena nº 21 – “Belém, Expressão das Artes”; Valsa Santarena nº 22 – “Serenata ao Luar”; Valsa Santarena nº 23 – “Melodia do Amor”; e Valsa Santarena nº 24 – “Sol Poente”.

Além disso, para a “Valsa dos Setenta Anos”, que dediquei ao meu pai, em 1982, ela sugeriu que se iniciasse outra Coletânea, com o título de “Amor e Arte”, e idealizou o subtítulo de “Valsa Romântica nº 1”. E, ainda, para outra valsa que dediquei à minha filha caçula (“Lorena”), ela sugeriu a criação de outra Coletânea, com o subtítulo de “Canção de Ninar”. Também compus valsas em homenagem à minha esposa Neide (1974) e aos meus filhos Vicente (“15 de Dezembro”) e Adriano (“9 de Janeiro”) e diversas para minha mãe.

Dediquei a “Valsa Santarena nº 39” à Rachel Peluso; e a “Valsa Santarena nº 41” à Gioconda Peluso, musicistas santarenas. Outras valsas foram dedicadas a diversos outras pessoas ligadas à Arte de Euterpe.

Enfim, eu continuei compondo, dentre outras peças, a série de “Valsas Santarenas”, pois também recebi muito incentivo e preciosos ensinamentos de meu saudoso pai (Wilson Fonseca – MaesQuando papai faleceu, eu havia chegado a 50 “Valsas Santarenas”. E revelei a ele que já era hora de encerrar essa série. Ele me disse: não pára; continua, sempre que houver inspiração.

E a “Valsa Santarena nº 51” eu fiz no próprio hospital, onde meu pai foi internado, em decorrência de uma queda que sofreu, com 89 anos de idade, em março 2002. Cerca de 10 dias depois ele faleceu, em Belém, onde estava na ocasião, pois havia sido homenageado com o recital “Encontro com Maestro Isoca”, em janeiro daquele ano. O recital foi gravado, ao vivo, e deu origem ao CD com o mesmo nome do recital.

Eu senti, quando compunha aquela “Valsa Santarena nº 51”, que estava fazendo uma espécie de “réquiem” para meu próprio pai. Parece premonição. Não sei como tive forças para tocar essa música, na Missa de Corpo Presente, em Santarém. O sepultamento dele lembra das homenagens póstumas para o Presidente Tancredo Neves e o piloto Ayrton Senna: uma apoteose, em Santarém. Ele era muito querido por todas as classes sociais.

Foi em Santarém que resolvi dar um subtítulo à “Valsa Santarena nº 51”. O subtítulo é “Lira Iluminada”.

Papai compôs, em 1941, a valsa “Lira Adormecida”, para seu pai (meu avô, José Agostinho da Fonseca), quando o velho ZéAgostinho caiu doente e não pôde mais fazer o que mais gostava: compor.

Quando meu avô morreu, papai compôs a “Lira Partida” (1945).

Em exatos 6 meses antes de papai falecer, eu havia composto a “Valsa Santarena nº 48”, com o subtítulo de “Lira Renovada”, pois papai havia se recuperado de um problema de saúde, em Santarém.

Ele chegou a ver as minhas Valsas Santarenas de nºs. 49 e 50. E gostou.

Quando papai foi sepultado, havia um luar muito bonito, em Santarém.

Tudo isso me levou a subintitular a “Valsa Santarena nº 51” de “Lira Iluminada” (cuja partitura deixei em seu jazigo). Em abril de 2002 fiz a letra. Depois fiz vários arranjos para esta composição, sobretudo para conjuntos camerísticos.

E continuo compondo essa série de “Valsas Santarenas”, graças aos incentivos de papai e da Profª Rachel Peluso, dois grandes mestres da Arte de Euterpe.

A “Valsa Santarena nº 55” (Coro e Orquestra) foi executada no Festival Música das Esferas de 2007, realizado nas cidades de Bragança Paulista e Serra Negra (SP), pela Orquestra Filarmônica e o Coral da Casa de Cultura Santo Amaro, de São Paulo – a quem a peça foi dedicada –, sob a regência da Maestrina Sílvia Luisada.

Em suma, a série de “Valsas Santarenas” sempre tem como motivação a nossa terra natal (Santarém-PA).

Foi justamente na minha infância que mais ouvi tantas serenatas (serestas), em Santarém, inclusive aquelas cantadas pelo tenor Joaquim Toscano ou seu filho, Expedito Toscano (tenor), e outros seresteiros que se notabilizaram na nossa “Pérola do Tapajós”.

Confesso que nunca esqueci esse momento mágico na minha infância. Eu ficava ouvindo, maravilhado, as canções entoadas por esses talentosos seresteiros, nas madrugadas enluaradas, em Santarém. Que saudade!…

Essa época, tão gostosa, é precisamente o que mais me inspira na criação dessas “Valsas Santarenas”, segundo já revelei outras vezes.

A “Valsa Santarena nº 88” (Quinteto de Sopros e Piano) foi executada, em primeira audição, pelo “Sexteto de 7”, no 48º Festival Villa-Lobos, que se realizou em novembro de 2010, na Sala Villa-Lobos, no Rio de Janeiro (RJ), e incluída na gravação do primeiro CD do grupo, em 2011. Criado em 1961, o Festival Villa-Lobos promove a obra de Villa-Lobos e de outros compositores brasileiros através de concertos sinfônicos, de câmera e de espetáculos de música popular e dança, um dos eventos de maior tradição no circuito musical brasileiro.

A “Valsa Santarena nº 77” (Quinteto de Metais), composta originariamente numa Sexta-Feira Santa, em 2009, tem o clima de obra sacra. Foi dedicada ao Maestro José Agostinho da Fonseca Neto, meu irmão, que dirige, em Santarém, o Instituto “Maestro Wilson Fonseca” (Música, Dança e Teatro), o Coral, a Banda Sinfônica e a Orquestra Sinfônica “Maestro Wilson Fonseca”. A melodia desta valsa foi aproveitada, pelo compositor, para a elaboração da peça “Maria – Ave Maria dos Migrantes” (Coro a 4 vozes mistas e órgão de tubo, com pedal), vencedora do Concurso Nacional de Composição de Música Sacra, promovido, em 2010, pela Paróquia Nossa Senhora de Boa Viagem – Igreja Matriz de São Bernardo do Campo (SP), em comemoração aos “200 anos de criação da Paróquia – 1812/2012”. Foi gravada, com o arranjo para Quinteto de Metais e Percussão, pelo Grupo “Bronzes da Amazônia”, no CD “Toca Pará” (2015).

A “Valsa Santarena nº 102” (Duo para Corne Inglês e Piano) e a peça “Uirapuru” (Duo para Oboé e Piano – homenagem in memorian de Gabriel Luciano Trench, genitor do musicólogo e jornalista Luís Roberto von Stecher Trench), de minha autoria, foram incluídas no concerto promovido pelo Projeto Música na Biblioteca, no Memorial da América Latina, em São Paulo, em 02 de maio de 2017, executadas pelos professores paulistas Gilson Barbosa (oboé e corne inglês) e Arlete Tironi Gordilho (piano), que devem gravá-las em CD.

As Valsas Santarenas nº 75 (“Seresteira”), 88 e 101 constam do projeto de gravação do CD “Família Fonseca: Do erudito ao popular” (Wilson Fonseca e Vicente Fonseca), pelo Trio “Pessatti-Rosati-Milhomens”, integrado pelos músicos Frederico Mendes de Oliveira Mil Homens (flauta), Samuel Pessatti (violoncelo) e Cleusa Marisa Rosati (piano), que atuam em Cuiabá (MT) e Curitiba (PR).

A pianista gaúcha Carla Ruaro, que reside em Portugal, onde frequenta o Curso de Doutorado em Performance Musical da Universidade Nova de Lisboa, incluiu as Valsas Santarenas nº 86 e 107 no projeto de gravação do CD e DVD “Floresta – Um Piano na Amazônia”, que também contém músicas de Wilson Fonseca (Maestro Isoca), meu saudoso pai.

Meu sonho é um dia gravar a série completa das “Valsas Santarenas”. Quem se habilita para interpretá-las?

A Música e o Tempo

Na semana do Dia das Mães estive no programa Café Cultura, da jornalista Michelle Valente, na TV Cultura, com o maestro Jonas Arraes, para entrevista sobre o Recital Cidadão, apresentado pela contralto Gabriella Florenzano e o pianista Humberto Azulay, na Igreja de Santo Alexandre, com o propósito beneficente de incentivar doações para o Projeto Cururu (Belém) e para a Escola de Música Maestro Wilson Fonseca (Santarém), que promovem educação musical para jovens, pois também participei do concerto no acompanhamento, ao piano, na execução da música Lenda do Boto (Wilson Fonseca).
Foi durante aquele Programa de TV que conheci o poeta Edgar Macêdo (Operário das Palavras), que declamou o seu poema Lição de Amor, em homenagens às mães. Na mesma noite, compus uma canção para este belo texto poético. E aí nasceu mais uma parceria musical. Em menos de 15 dias, escrevi, sobre poemas de Edgar, outras quatro músicas: Na pele da raça, essa dor que não passa (samba); Planeta Coração (maxixe); Voz de Índio (sairé); e Declaração de Amor (canção).
Entusiasmado com a nova parceria, o poeta enviou-me mensagens como estas:
“Meu parceiro, você me faz acreditar novamente que existem milagres. Que a generosidade e a sensibilidade humanas, ainda estão nas entrelinhas da vida. Acho que já ouvi a execução da sua música umas trinta, quarenta vezes nesta manhã. Sei o quanto as notas musicais valorizam letras, realçam imaginações, e dão o tom da emoção do poeta. Muitas das vezes como neste caso, até a elevam, em decibéis que embalam nossas almas. Ainda faremos muitos trabalhos juntos, por isso me permiti, resguardadas as proporções de dizer no título que somos, como diria Monteiro Lobato, ‘Raízes da mesma Fábula’.
“A VOZ do nosso ÍNDIO, ecoará bem mais longe. Tradições como a dança do Sairé, a dança do Aruanã, uniram o Xingu e o Tapajós, e esse nosso grito amazônico dramático, poético e lúdico, ainda há de ser executado na Quinta Avenida, em Tóquio… em qualquer lugar deste planeta, onde a sensibilidade humana prevaleça sobre as leis de mercado. Acho que enquanto houver papel, caneta e piano, seguiremos criando ambientes que nos façam lembrar que ainda somos INDIOS, e temos VOZES, cantos lamentos e talentos a serviço da harmonia do planeta. Amém!”
O mês de maio começava e terminava com música. Compus o hino 1º de Maio, em homenagem ao Dia do Trabalho; e a pedido da Drª Maria do Carmo Martins Lima, ex-prefeita de Santarém, a valsa Ana Victória, para os 15 anos de sua filha.
Em junho, o Quarteto Maestoso participa do XXII Festival Internacional de Música (Fundação Carlos Gomes), com músicas do francês Maurice Ravel, do paulista Osvaldo Lacerda, além do meu chorinho Irurá, peça premiada no Concurso Internacional de Composição 2006, promovido pelo Quinteto Amizade, de Brasília.
Em breve, o quarteto fará um concerto com músicas de três gerações da família Fonseca (José Agostinho da Fonseca, Wilson Fonseca e Vicente Fonseca), como ocorreu em janeiro deste ano, no Theatro da Paz, durante o 5º Fórum Mundial de Juízes. Luciana Arraes, primeiro violino do quarteto, é mestranda na University of Massachusetts (USA). Os demais integrantes do quarteto são Hélio Saveney (2º violino), Rodrigo Santana (viola) e Laís Tavares (violoncelo), todos paraenses.
Outro dia me perguntaram: como você consegue conciliar a música com a magistratura e o magistério? Respondi: gosto de tudo que faço. Tempo a gente arruma.

Orquestras em Santarém

Ao sancionar a Lei nº 8.017, de 27 de junho de 2014, que declara e reconhece como de utilidade pública para o Estado do Pará, a Associação de Pais e Amigos da Escola de Música “Maestro Wilson Fonseca” do Município de Santarém (PA), o Governador Simão Jatene permitiu a assinatura de convênio da entidade com a Fundação Carlos Gomes, em Belém (PA) para a instalação do Curso Cordas (Violino, Viola, Violoncelo e Contrabaixo) no Instituto “Maestro Wilson Fonseca”, que possibilitará a ampliação de suas atividades, além da formação da Orquestra de Cordas e da Orquestra Sinfônica “Maestro Wilson Fonseca”, conforme anuncia o Maestro José Agostinho da Fonseca Neto, Diretor do Instituto, onde se desenvolvem cursos de música, teatro e dança, na “Pérola do Tapajós”.
O Projeto de Lei nº 299/2014 é de autoria da Deputada Simone Morgado, o que revela a união de forças, supra partidárias, para a concretização da ideia.
Por ocasião dos 50 anos de fundação da Filarmônica Municipal “Prof. José Agostinho”, homenageada em sessão especial na Câmara Municipal de Santarém, em 29.10.2013, escrevi um texto em que lembrei que “na noite de 4 de setembro de 1963, no Cine Teatro ‘Cristo-Rei’, foi realizada a solenidade de inauguração oficial e a apresentação da ‘Banda Professor José Agostinho’, sob a direção dos irmãos Wilson (Isoca) e Wilde (Dororó) Fonseca, com a colaboração dos sargentos do Exército João de Deus Damasceno e Raimundo Bittencourt, do Tiro de Guerra 190, e apoio de Everaldo Martins, Prefeito Municipal de Santarém”.
No mesmo artigo, assinalei que “com o falecimento de Isoca (2002), Dororó (2010) e Bazinho (2011), a Filarmônica passou a ser dirigida pelo Maestro João Paulo Santos Fonseca, meu primo, neto de José Agostinho da Fonseca, filho de meu tio Wilde Fonseca e Madalena Santos Fonseca (que integrou o conjunto tocando pratos). Na tradição da família Fonseca, os irmãos do Maestro João Paulo (José Wilde, Agostinho e Benedito) também foram membros da Filarmônica. Hoje, ainda permanece, no naipe de saxofone-alto, o primogênito José Wilde. Do mesmo modo, atuaram, nas décadas de 60 e 70 do século passado, meus irmãos José Wilson (sax-horn, sax-alto, trompete e trombone) e José Agostinho Neto (clarinete e percussão). Eu toquei sax-horn e barítono (espécie de eufônio)”.

E concluí aquele texto com estas palavras:
“Lembro-me de que, já magistrado trabalhista, atuei ao lado de pessoas muito simples, operários, carpinteiro, feirante, tratorista, alfaiate, pedreiro. Mas ali não estávamos investidos em cargo público de elevada hierarquia e, sim, como integrantes de uma banda de música, cada qual com o seu instrumento musical, no mesmo nível, sob a batuta do maestro (meu pai Wilson Fonseca ou meu tio Wilde Fonseca). O mesmo se pode dizer dos corais que eles dirigiram.
Assim, a banda de música ou o coral, além de funcionar como autêntico ‘conservatório popular’, à falta de escolas que proporcionassem formação acadêmica, permite o tratamento democrático, sem distinção de raça, credo ou profissão, pois todos ali são simplesmente músicos, pioneiros, amadores e idealistas, jovens e idosos, sem conflito de gerações ou diferença de status social. Os tempos atuais são outros, com escolas oficiais de música, na cidade”.
De fato, atualmente a Escola de Música da Filarmônica Municipal “Prof. José Agostinho” oferece Curso de Cordas, que subsidia a Orquestra Filarmônica de Santarém, igualmente dirigida pelo Maestro João Paulo Santos Fonseca.
Por sua vez, o Instituto Maestro Wilson Fonseca nasceu com a expansão das atividades da Escola de Música “Maestro Wilson Fonseca”. Esta Escola foi fundada em 02 de agosto de 1993 pela então Superintendente da Fundação Carlos Gomes, Prof.ª Glória Caputo, e o Maestro José Agostinho da Fonseca Neto, seu atual Diretor, desde a fundação. Há 20 anos desenvolve as suas atividades, que hoje alcançam não apenas a música, como também os cursos de dança e teatro.
Todavia, é preciso destacar, com ênfase, que Santarém já contava com excelentes orquestras pelo menos desde o início do século XX.
Em outro artigo, intitulado “Theatro Victória – um sonho”, escrevi:
“Em 5 de maio de 1895 foi assentada a pedra fundamental do edifício do Theatro Victória de Santarém, pelos sócios do Clube Dramático, com a presença da população, autoridades e banda de música. A obra, projetada pelo engenheiro francês Maurice Blaise, foi construída na atual Praça Rodrigues dos Santos, em 13 meses, com recurso exclusivamente particular, sem qualquer verba pública. Em 28 de junho de 1896 era inaugurado o Theatro Victória. Em toda a Amazônia havia apenas três teatros de grande envergadura: o Theatro da Paz, em Belém; o Amazonas, em Manaus; e o Victória, em Santarém.
No teatro atuaram diversas companhias, artistas célebres da época e atores internacionais que estiveram em Belém e Manaus.
Nele atuaram também meu avô José Agostinho da Fonseca e meu pai Wilson Fonseca. Meu avô compôs músicas de várias peças encenadas no teatro: EU VOU TELEGRAFAR (libreto: Felisbelo Sussuarana) e A CRISE (libreto: Alfredo Ladislau); e maxixe Theatro Victória, gravado no CD Sinfonia Amazônica (vol. 2, 2002), pela Orquestra Jovem Maestro Wilson Fonseca. Ele atuou ainda como ator e maestro de orquestra.
Meu pai também compôs músicas de peças encenadas no teatro: CADÊ NHÁ CULARINDA? (libreto: Paulo Rodrigues dos Santos) e OLHO DE BOTO (libreto: Felisbelo Sussuarana). Isoca atuou como pianista, ao tempo do cinema mudo, no Cinema Victória, que funcionava no mesmo teatro, e ali criou a sua primeira composição, a valsa Beatrice (1931).
Destaque também merece Joaquim Toscano, diretor e cantor”.
Como se vê, a tradição musical e artística da “Pérola do Tapajós”, que neste ano completa 353 anos de fundação, é mais do que secular.
Meu tio Wilmar Dias da Fonseca, no livro “José Agostinho da Fonseca: O Músico-Poeta” – Belém/Santarém: Imprensa Oficial do Estado do Pará, 1978, registra (páginas 37/38):
“Em Santarém, na época [início do século XX], além da vida mundana, como já vimos, ativa, florescia uma vida cultural relativamente intensa, notadamente a teatral, poética e jornalística. Ressentia-se, entretanto, de elementos capazes de ativar e dar melhor feição à arte de Euterpe [música] que, ao contrário das outras, se achava em precárias condições. E foi por isso que Antônio Braga convidou José Agostinho para fixar-se na cidade.
A seguir, já em 1908, [José Agostinho da Fonseca] criou pequena orquestra composta de oito figuras – uma clarineta, ele próprio, duas flautas, dois violinos, um celo [violoncelo], um contrabaixo de cordas e piano – destinada a bailes e à realização de concertos. Essa pequena orquestra, já em 1912 denominada ‘Sustenidos & Bemóis’, era formada de elementos em que maioria criados por ele, pois tendo encontrado em Santarém somente músicos pertencentes ou que haviam pertencido a diferentes bandas de música, e uns poucos diletantes que arranhavam um ou outro instrumento de cordas, precisou criar as figuras até então inexistentes e indispensáveis à formação da orquestra por ele idealizada e organizada. Pois conhecendo teoricamente a quase todos instrumentos, e visando à formação do conjunto, lançou-se à tarefa de ensinar instrumentos de pau e corda, além daqueles, de sopro e percussão, destinados à filarmônica, posto que os jovens, que se entusiasmaram pela arte, interessavam-se uns pela banda de música ‘Sete de Setembro’ e outros pela orquestra do ‘Grêmio Antônio Braga’, a primeira, que antecedeu ‘Sustenidos & Bemóis’”.
Mais adiante, ao comentar sobre o papel do Professor José Agostinho da Fonseca, seu filho Wilmar Dias da Fonseca, na mesma obra (p. 44), relaciona alguns músicos executantes de Violino (o mais tradicional instrumento de Cordas), em Santarém, naquela época: Laurimar Amazonas Corrêa, Firmo Sirotheau, Iracema Sirotheau, Antônio Anselmo de Oliveira e Adalberto Gonçalves Gentil. E acrescenta: “Laurimar tocou na sua [de José Agostinho da Fonseca] última orquestra de câmara, nos Assembleia e Euterpe Jazz e quarteto Vitória, ao tempo do cinema mudo. Exibiu-se em Belém, Manaus e Rio de Janeiro, onde faleceu. Firmo [Sirotheau] o substituiu no Conjunto do [Teatro] Vitória e Antônio Anselmo e Adalberto tocaram no Euterpe-Jazz e no quarteto quando em ação no Cine Olímpia. Todos participaram de lítero-musicais da terra”.
A Orquestra Euterpe Jazz atuou em Santarém de 1930 a 1953.
Quanto às orquestras criadas e dirigidas por José Agostinho da Fonseca, acentua Wilmar Fonseca, na biografia sobre seu pai, meu avô:
“As Orquestras de Câmara e José Agostinho devem ser entendidas tendo-se em vista o tempo em que foram organizadas e o meio para o qual se destinaram. As dificuldades eram imensas, notadamente à falta de instrumentos musicais adequados, carentes na época. Apesar disso, ‘Sustenidos & Bemóis’ e ‘Tapajós’ foram boas orquestras e equilibradas: três violinos, três flautas, pistão [trompete], contrabaixo, celo [violoncelo], clarineta e piano. E seu quarteto – piano, violino, flauta e contrabaixo – nada ficava a dever àqueles que deliciaram os habitués dos cinemas das grandes capitais – dizia-se.
Com referência ao ‘Euterpe-Jazz’, aquelas dificuldades inexistiam. O instrumental era apropriado, novo, moderno – dois saxofones (mib e sib), dois trombones (de vara e de pistão), dois trompetes, dois banjos tenores, piano, violino, clarineta, contrabaixo e bateria. Teve fama, foi respeitado e tido como um dos melhores da Amazônia. Capiba [Lourenço da Fonseca Barbosa], o renomado compositor pernambucano, em excursão pelo Norte, em 1933, com o seu excelente ‘Jazz Acadêmico’, ao passar por Santarém, ouviu-o num baile no Teatro Vitória, no qual os dois conjuntos alternavam-se, e considerou o ‘Euterpe Jazz’ como ‘o melhor de toda a Amazônia’” (p. 47).
Essas informações são confirmadas pelo musicólogo paraense Vicente Salles, em seu livro Sociedades de Euterpe (As Bandas de Música no Grão-Pará). Brasília: Edição do Autor, 1985, especialmente nas páginas 193/197, nas abordagens sobre as atividades de José Agostinho da Fonseca como professor e dirigente de orquestras em Santarém.
Vicente Salles ainda se reporta ao violinista, compositor e regente, Isaías Oliveira da Paz (1887-1965), que nasceu em Santarém e estudou e, depois, residiu em Belém (Música e Músicos do Pará. Belém: Conselho Estadual de Cultura, Coleção “Cultura Paraense”, Série “Theodoro Braga”, 1970, p. 220).
José Agostinho da Fonseca estudou no Instituto de Educandos e Artífices do Pará (Instituto Lauro Sodré), em Belém. Tocava clarinete, saxofone, piano e contrabaixo. Estudou ainda com o Maestro Paulino Chaves (que teve educação musical na Alemanha), inclusive instrumentos de cordas.
Se é verdade que Santarém já contava com orquestras, sobretudo criadas e dirigidas por José Agostinho da Fonseca (1886-1945), desde o início do século XX, no ano 1948 Wilson Fonseca – Maestro Isoca (1912-2002) compôs a sua primeira obra musical no gênero sinfônico: “Centenário de Santarém – Abertura Sinfônica”.
No encarte do CD “Wilson Fonseca Centenário”, editado pelo selo Uirapuru – O Canto da Amazônia, da Secretaria de Estado de Cultura, com apoio da Academia Paraense de Música, e lançado, no Theatro da Paz, em Belém (PA), em 15 de maio de 2014, eu escrevi:
Em 27 e 30 de junho de 2012, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, sob a regência do Maestro José Agostinho da Fonseca Júnior, realizou concertos em Belém (Theatro da Paz) e em Santarém (Igreja do Santíssimo), com a participação do Coro Carlos Gomes e convidados, em comemoração ao centenário de nascimento de Wilson Fonseca (Maestro Isoca), promovida pelo Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Cultura.
Foram executadas as músicas “Centenário de Santarém” – abertura sinfônica (1948); “Missa Mater Immaculata” (1951), “América 500 Anos” – poema sinfônico, com texto poético de Emir Bemerguy no 4º movimento (1992); “Canção de Minha Saudade” (1949), com letra de Wilmar Fonseca; e, ainda, “Um Poema de Amor” (1953), bolero, em número extraprograma (bis).
Este CD é o registro do concerto no Theatro da Paz.
A seguir, breves comentários sobre as obras musicais, todas de autoria de Wilson Fonseca (1912-2002), compostas num período de quase 50 anos.
Centenário de Santarém – Abertura Sinfônica (1948).
Peça composta especialmente para a celebração do 1º centenário da elevação de Santarém (PA) à categoria de cidade, em 24.10.1948, data de sua estreia por uma pequena orquestra sob a regência do compositor. Obra de concerto, de um só movimento, com vários andamentos: Andante, Maestoso (com uma cadenza: canto de pássaro), Andante expressivo (melódico), Allegro, Andante religioso, Marcial, Allegro, Andante (ondas do Rio Tapajós), Allegro, Maestoso, Allegro, Presto.
A música também foi executada, em 1972, pela Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Pará, no encerramento da Semana de Santarém, no Theatro da Paz, sob a regência do Prof. Alfredo José Trindade; e, em 1997, na inauguração da temporada anual da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, sob a regência do Maestro Andi Pereira, e no programa em homenagem ao transcurso do primeiro centenário de morte do Maestro Carlos Gomes, em Belém.
O curioso é que Wilson Fonseca, conforme ele mesmo contava, começou a compor esta peça exatamente no dia do nascimento de seu segundo filho (Vicente), quando o compositor escreveu o tema inicial da abertura. Naquela época os partos eram realizados no próprio domicílio da parturiente.
O Maestro Isoca elaborou, além da versão para orquestra sinfônica, transcrição para piano, que foi executada, em Santarém, pelo compositor, por sua irmã Maria Annita Fonseca de Campos e por mim, em ocasiões distintas.
Wilson Fonseca, no livro Meu Baú Mocorongo (6 volumes). Belém: Imprenso por RR Donnelley Moore (SP) e editado pelo Governo do Estado do Pará (Secretaria Especial de Promoção Social, Secretaria Executiva de Cultura e Secretaria Executiva de Educação), parte do Projeto Nossos Autores, coordenado pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares (SIEBE), 2006, abre o 3º Volume da obra e trata do tema sobre “Santarém Musical”, cujo primeiro tópico (“Preludiando”) fala sobre a musicalidade dos santarenos. Em certo trecho, diz o Maestro Isoca (ob. cit., páginas 678, 680/682):
“Comandados por José Veloso Pereira – o mago do violino – o santareno que fez brilhante curso musical na Itália, a Pátria da música, e terminou os seus dias em sua terra natal, como manejadores do arco recordemos Álvaro Pinheiro, Domingos Veloso Salgado, Isaías Oliveira da Paz, Laurimar Corrêa, Pedro Maia, Dinico Menezes, Raimundo Sussusrana, José Cardoso da Rocha, Firmo e Iracema Sirotheau, Antônio Anselmo de Oliveira, Adalberto Gonçalves Gentil e outros” (pág. 678 – 3º Volume).
Ainda o mesmo ‘Jornal de Santarém’, em sua edição nº 430 de 30.10.1948, comenta a Sessão Lítero Musical como segue:
Em primeira audição, foi ouvida a ‘SINFONIA DO CENTENÁRIO’ composta especialmente pelo jovem e inspirado maestrino Wilson Fonseca, santareno da gema, filho do saudosíssimo maestro José Agostinho da Fonseca e, como o seu pai, um apaixonado pela sublime arte do Som. As suas composições, revelam um conjunto de apurado bom gosto e fina sensibilidade artística. Do mesmo autor, tivemos ‘Lua Branca’, com letra de Paulo [Rodrigues dos] Santos, magistralmente cantada pelo conhecido tenor Joaquim Toscano, a voz que a todos encanta e que todos aplaudem e acompanhado pela orquestra de cordas; ‘Lira Partida’, uma valsa escrita em memória de seu pai, que agradou plenamente pelo seu estilo sentimental e boa orquestra.
Se Flávio Tapajós [Felisbelo Sussuarana] foi o mais harmonioso poeta mocorongo, José Agostinho foi o mais poético dos músicos santarenenses. Privilegiada sensibilidade artística, inspiração maviosíssima e múltipla, o maestro José Agostinho deixou uma prodigiosa produção esparsa. Foram escolhidas para a grande noite de arte, as valsas ‘Lucy’ e ‘Santarém Moderna’, executadas pela orquestra.
O número que revelou a capacidade musical dos exímios executores componentes da orquestra, foi o arranjo orquestral que Wilson Fonseca fez da conhecida e sempre aplaudida ‘Sinfonia do Guarany’, do grande brasileiro Carlos Gomes.
Encerrando a noitada de arte, antes da execução do ‘Hino Nacional Brasileiro’, ouvimos ‘Santarém’ [atualmente, ‘Hino de Santarém’], marcha oficial do Centenário da cidade, composição de Wilson Fonseca com letra de Paulo [Rodrigues dos] Santos, tocada pela orquestra e cantada pelo coro misto.
Na grande festa tudo foi Santarém e sua cultura se relevando!”.
Ao discorrer sobre os “50 anos de bons servidores prestados à Música em Santarém”, Wilson Fonseca refere-se a vários músicos, nacionais e estrangeiros, que atuaram na Pérola do Tapajós. Em certo trecho fala sobre Frei Feliciano Trigueiro, que chegou em Santarém em 1945, “assumindo a direção do ‘Ginásio Dom Amando’. Pedagogo por excelência, era dotado, ainda, de grande talento musical. Foi o continuador do trabalho de Frei Izidoro [Risse] na direção do conjunto vocal do ginásio. Organizou e dirigiu uma pequena porém excelente orquestra de câmara em nossa cidade, contando com a colaboração dos principais valores da terra, além de seus confrades Freis Rodolfo Hartmann e Cláudio Schneider [violinista]. Essa orquestra de elite é sempre lembrada com saudade pelos seus apreciadores e componentes” (“Meu Baú Mocorongo”, 3º Volume, p. 699/700).
No tópico sobre a Orquestra Euterpe Jazz, Wilson Fonseca lembra que “meia centena de musicistas passou pelas fileiras do famoso conjunto”. Em seguida, cita os nomes de alguns executantes, por exemplo, de violino: “Laurimar Corrêa, Antônio Anselmo de Oliveira, Ubirajara Fona, Adalberto Gonçalves Gentil, Wilde Dias da Fonseca e Orlando Wilson Brito de Almeida” (“Meu Baú Mocorongo”, 3º Volume, p. 707).
Segundo Wilde Dias da Fonseca (Maestro Dororó), em sua obra Santarém: Momentos Históricos. 4ª edição, Santarém: Gráfica Brasil. ICBS – Instituto Cultural Boanerges Sena e Prefeitura Municipal de Santarém, 2006/2007, Jose Agostinho da Fonseca “foi o pioneiro da arte da composição musical em Santarém”. E prossegue: “O eminente crítico musical brasileiro Guerra-Peixe, apreciando esse álbum [Obra Musical de José Agostinho da Fonseca – remanescente, editado em 1981, pela Imprensa Oficial do Estado do Pará, sob os auspícios dos filhos do compositor], assim se manifestou: ‘… observa-se que sua linha melódica, mesmo quando limitada ao estilo que era habitual ouvir e escrever, assinala bastante inquietação, como quem tentasse voar mais alto, porém sem perder de vista os fins a que se propunha. Sua linha melódica registra saltos constantes, flutuações que só modernamente vem sendo experimentadas. E isso a gente pode concluir da leitura que, momentaneamente, parece abalar os padrões já aceitos. Foi muito criativo neste sentido” (páginas 152/153).
A respeito de meu tio e padrinho Wilde Fonseca (Maestro Dororó), escrevi um artigo para publicação no Programa da Festa de N. S. da Conceição, Santarém-PA, mas ainda inédito, do qual transcrevo estes trechos:
“Dororó era músico, professor, historiador, compositor e maestro, além de cantor (barítono-baixo). Tocava violino, contrabaixo de cordas, acordeon, órgão, harmônio, piano, além de ser regente de Corais e Banda de Música. Integrou, como violinista, a Orquestra Euterpe Jazz, fundada e dirigida por seu pai e depois por Wilson Fonseca. Teve participação ativa no movimento teatral, como ator, em diversas peças, em Santarém.
Aprendeu a tocar harmônio com Irmã Úrsula Luttig I.C.; violino e contrabaixo de cordas com Wilson Fonseca, seu irmão; e regência com Frei Edmundo Bonkosch, O.F.M., a quem substituiu, quando este, transferido para Alenquer, deixou a direção do Coro da Congregação Mariana, em 1938. Em 1942 reorganizou o conjunto, que passou a chamar-se ‘Coro de Santa Cecília’ e permaneceu ativo até 1951, quando se transformou na ala masculina do ‘Coro da Catedral de Santarém’, dirigido pelos irmãos Isoca (organista) e Dororó (regente). Fundou ainda, em conjunto com seu irmão Wilson Fonseca, o ‘Coral de Santarém’ e a Filarmônica Municipal ‘Prof. José Agostinho’.
Dentre as homenagens musicais, antes e depois da Missa, destaco a participação emocionante da Filarmônica ‘Prof. José Agostinho’, sob a regência de Rafael Nascimento de Macedo Brito, trombonista e regente substituto, e da Orquestra Jovem ‘Maestro Wilson Fonseca’, sob a regência de José Agostinho da Fonseca Neto, meu irmão, sobretudo quando as orquestras tocaram em conjunto, a Filarmônica agora sob a regência de meu primo João Paulo Santos Fonseca, filho de Dororó, precisamente conforme era o desejo de Wilde Fonseca, revelado na ocasião pelo Tinho.
(…)
Depositário de relíquias da família, Wilde guardava com carinho a tesoura de alfaiate e a batuta de maestro, pertencentes a meu avô José Agostinho da Fonseca; a caneta de ouro e madre-pérola que José Agostinho ganhou como prêmio por ter obtido o 1º lugar na conclusão do Curso de Música no Instituto de Educandos e Artífices, em Belém, em 1906; o contrabaixo de cordas, tocado por meu avô, por meu pai Isoca e por meu tio Dororó. Os familiares pretendem conservar o seu piano, os demais instrumentos musicais, a sua rica biblioteca, as relíquias guardadas, a máquina datilográfica e o quarto de Dororó, como uma espécie de memorial ou museu, para visitação pública.
Sobrinho e afilhado de Wilde Fonseca, prestei-lhe uma singela homenagem póstuma: depositei a partitura da musica ‘Marcapasso’ (chorinho), de minha autoria, no ataúde de meu querido tio Dororó, a exemplo do que fiz com a Valsa Santarena nº 51 (‘Lira Iluminada’), que compus em homenagem a meu saudoso pai Wilson Fonseca (maestro Isoca), em 2002. O chorinho foi escrito em 2007, logo após a sua cirurgia cardíaca para implantação de um aparelho marcapasso, em Belém, e tocado nos 90 anos de Dororó, em 2009, na interpretação da cantora Kaila Moura, acompanhada por um Quinteto de Sopros (Flauta, Oboé, Clarinete, Trompa e Fagote), em Santarém.
No “Meu Baú Mocorongo” (Wilson Fonseca) e no livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, editado pela Gráfica do Banco do Brasil (Rio de Janeiro, 2012), de minha autoria, existem outras referências sobre as orquestras de Santarém e fotos que ilustram a matéria.
Portanto, há mais de um século que existem orquestras em Santarém, nas mais variadas modalidades, integradas por instrumentos de Cordas, Madeiras, Metais e Percussão para execução de músicas de qualidade.
Quiçá a futura Orquestra Sinfônica “Maestro Wilson Fonseca” tenha estrutura e apoio necessários, à altura do elevado nível cultural de Santarém.

Vicente Malheiros da Fonseca – magistrado, professor e compositor

Oração de Posse no Instituto Histórico e Geográfico do Pará

Venho de Santarém, Estado do Pará, Amazônia, onde fica o paradisíaco balneário de Alter do Chão, que ostenta o título da mais bela praia do Brasil, eleita pelo jornal inglês The Guardian, lá na “minha terra tão querida, meu encanto minha vida…”, a “Pérola do Tapajós”, berço da famosa Festa do Sairé, com a disputa dos botos cor-de-rosa e tucuxi.Venho de Santarém, Estado do Pará, Amazônia, onde fica o paradisíaco balneário de Alter do Chão, que ostenta o título da mais bela praia do Brasil, eleita pelo jornal inglês The Guardian, lá na “minha terra tão querida, meu encanto minha vida…”, a “Pérola do Tapajós”, berço da famosa Festa do Sairé, com a disputa dos botos cor-de-rosa e tucuxi.Além de tapajônicas, minhas origens também vêm da música, sob o signo da arte de Euterpe, desde meu avô José Agostinho da Fonseca (1886-1945) e meu pai Wilson Fonseca, conhecido como Maestro Isoca (1912-2002), cujo centenário de nascimento ocorre justamente neste ano, circunstância que me incentivou a escrever um livro em sua homenagem, sobre a sua vida e sua obra.

Ambos eram compositores. Meu avô, também era alfaiate; e meu pai, bancário. Portanto, operários. Minha mãe (Rosilda), dona de casa.

O centenário de Isoca constitui momento adequado para a publicação de um livro que comecei a escrever há muitos anos, em homenagem a Wilson Fonseca, síntese de sua biografia e diversas outras informações a seu respeito: bibliografia, discografia, obra musical, partituras impressas, fotos etc.

O livro representa uma autêntica “missão de vida”. Um livro de homenagem filial. A realização de um ideal.Por isso, sugeri que a data de minha posse no Instituto Histórico e Geográfico do Pará coincidisse com o dia do lançamento do livro, em Belém, sobre o título de “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, impresso pela Gráfica do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.Além de compositor, meu pai também era historiador, como revela a sua magnífica obra “Meu Baú Mocorongo” (6 volumes), impresso por RR Donnelley Moore (SP) e editado pelo Governo do Estado do Pará (Secretaria Especial de Promoção Social, Secretaria Executiva de Cultura e Secretaria Executiva de Educação), parte integrante do Projeto Nossos Autores, coordenado pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares (SIEBE), 2006.

Não deixa de ser também uma homenagem à minha querida mãe Rosilda (1918-2009), sua musa inspiradora de sempre.Um sábio e precioso conselho de meu tio Wilmar Fonseca – autor da letra da bela “Canção de Minha Saudade” (1949), que tem música de Isoca – despertou-me para acalentar a ideia do livro, quando em sua companhia morei em São Paulo (SP), a fim de estudar no Conservatório Musical José Maurício, na capital paulista (1962-1963), aluno das Professoras Rachel Peluso (compositora) e Gioconda Peluso (soprano), ambas santarenas.

Eis o conselho: “Vicente, o teu pai é um gênio! E tu precisas divulgar melhor sua obra musical”.

Foi ali, à distância, que aprendi a apreciar, ainda mais, a figura de meu pai, como homem e como artista.

Desde então, ainda muito jovem, adotei, como missão de vida, divulgar a sua obra musical, o que tenho feito ardorosamente, porque reconheço nele um dos mais importantes compositores brasileiros.Meu pai, de origem humilde, chegou à Academia Paraense de Música, que tem por Patrono meu avô; e à Academia Paraense de Letras. Embora seja mais conhecido como músico, Wilson Fonseca foi funcionário do Banco do Brasil, em Santarém, durante 31 anos.Por coincidência, a saudação que recebo, nesta solenidade de posse, foi proferida por um colega de meu pai, no Banco do Brasil, o ilustre acadêmico e advogado Dr. Célio Simões de Souza, cujas palavras, tão generosas e cordiais, agradeço profundamente.

Mais do que confrade, Célio, obidense, escritor, poeta e meu parceiro em diversas músicas que compus, é casado com a minha prima Fátima, descendente, como eu, de confederados norte-americanos, na linha de descendência de nossas genitoras.

Desejo registrar que o ponta-pé inicial para meu ingresso, neste Sodalício, deve-se ao amigo Célio Simões, a quem manifesto minha gratidão.Quero também externar agradecimentos a todos os eméritos confrades que me honraram com a escolha de meu nome para ingressar neste Instituto.

A Cadeira nº 13, em que tomo posse, tem por Patrono Domingos Antonio Rayol, fundador da Academia Paraense de Letras, em 1900.Outra coincidência: meu pai, Wilson Fonseca, ocupou, em sucessão ao Maestro Waldemar Henrique, a Cadeira nº 7, na Academia Paraense de Letras, cujo Patrono também é Domingos Antonio Rayol, o Barão de Guajará.Mais outras coincidências: Rayol nasceu em março, mesmo mês do meu nascimento. Faleceu em 1912, mesmo ano do nascimento de meu pai; e no dia 27 de outubro, mesmo dia do falecimento de minha avó paterna (1971).Sou tentado ainda a citar outras coincidências: hoje (14 de dezembro) é Dia de São João da Santa Cruz. Pois o nome da atual Rua Wilson Dias da Fonseca (Maestro Isoca), assim denominada pela Lei Municipal nº 19.132, de 28 de novembro de 2012, em Santarém – antiga Rua Marechal Floriano Peixoto – era Rua Santa Cruz. E a Rua Wilson Fonseca, no Rio de Janeiro (Decreto nº 27.126, de 09.10.2006), em homenagem ao compositor santareno, fica no bairro Santa Cruz, na “Cidade Maravilhosa”.Domingos Rayol era natural da Vigia, Estado do Pará, onde nasceu em 30 de março de 1830. Filho de Pedro Antonio Rayol, sapateiro, e de D. Arcângela Maria da Costa Rayol. Aos 5 anos de idade perdeu o seu pai durante a revolta da Cabanagem (1835-1840), quando Vigia foi tomada de assalto pelos rebeldes em 1835. Tal acontecimento trágico marcaria profundamente o restante da sua vida. Sobre a continuidade de sua infância não há muitas informações. Sabe-se que após terminar os seus estudos primários e secundários no Lyceu Paraense, seguiu em 1849 para Pernambuco, onde se graduou Bacharel em Direito pela tradicional Faculdade do Recife, em 1854. Depois de formado, seguiu para o Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, local onde exerceu o seu ofício junto ao Conselheiro Bernardo de Sousa Franco, durante período de dois anos. Mais tarde, em 1856, voltou ao Pará, onde passou a exercer o cargo de Procurador da Fazenda Nacional. Posteriormente, candidatou-se a Deputado da Assembléia Provincial, sendo eleito diversas vezes, fazendo parte da legislatura de 1864 a 1866. Ainda durante este período, exerceu a Presidência de várias Províncias brasileiras (Pará, Alagoas, Ceará e de São Paulo). Na Província de Alagoas teria recebido o título nobiliárquico de “Barão do Guajará”. Para outros autores, o título teria sido concedido na Província de São Paulo. No ramo literário foi sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e escreveu vários artigos para os jornais da época, entre os quais se destacam: “O Brasil político” de 1858; “A abertura dos portos do Amazonas” de 1867; “Limites do Brasil com a Guiana Francesa” etc. No entanto, a sua principal obra foi sobre a situação política do Pará, desde o tumultuado processo de adesão à independência do Brasil até os inícios da revolta da Cabanagem, mais conhecida como “Motins políticos ou História dos principais acontecimentos políticos da Província do Pará desde o ano de 1821 até 1835”. Nos cinco volumes da obra, impressa em vários locais, no período de 1865-1890, Rayol retornou ao momento mais difícil de sua vida, ao relembrar a morte do pai durante a revolta, bem como analisou o histórico da grande revolta da Amazônia. Dedicou a obra ao Imperador do Brasil D. Pedro II. Casou-se com Maria Vitória Pereira Chermont e passou a residir no grande solar, que existe até os dias atuais e que abriga o Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP). Rayol faleceu em Belém, no dia 27 de outubro de 1912, aos 82 anos de idade. A sua obra mais conhecida constitui uma das principais fontes de informação sobre o período da Cabanagem no Pará.O último ocupante da Cadeira nº 13 foi Manoel José de Miranda Neto. Economista, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pós-graduado em Economia Rural (Stanford University), Desenvolvimento Econômico (CEPAL), Planejamento Urbano e Regional (IBAM) e Desenvolvimento Agrícola (Fundação Getúlio Vargas), exerceu o magistério superior (Economia Brasileira, Economia Amazônica, Técnicas de Pesquisa Econômica, Política e Programação Econômica) e o jornalismo especializado. Professor convidado pela Universidade Livre de Berlim. Articulista dos jornais O Liberal, Belém, e da Gazeta Mercantil, Rio de Janeiro. Membro da Academia Paraense de Letras, da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Imprensa, da Campanha Nacional de Defesa e pelo Desenvolvimento da Amazônia, da Comissão Paraense de Folclore, da Academia Paraense de Jornalismo, da Sociedade Nacional da Agricultura, da Federação da Agricultura do Estado do Pará e da Associação Comercial do Pará. Sócio efetivo da Sociedade de Preservação dos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia. Filiado ao Conselho Regional de Economia, Rio de Janeiro. Foi bolsista Fulbright, DAAD/Goethe Institut, pesquisador do CNPq e do IDESP. Participou de vários Congressos e Seminários dentro da sua especialidade, Globalização, Cidadania e Qualidade de Vida. É autor de inúmeras obras, como A Foz do Rio Mar. Rio de Janeiro: Record, 1968; Marajó, Desafio da Amazônia. Rio de Janeiro: Record, 1976 (1ª. Ed.) – Belém: Cejup, 1993 (2ª. Ed.); Dilema da Amazônia. Petrópolis: Vozes, 1979 (1ª. Ed.) – Belém: Cejup, 1986(2ª. Ed.); Furacão Global: As transformações cruciais na era do conhecimento: manual de sobrevivência na selva globalizada. Belém: Grafisa, 2001, dentre tantas outras.Retorno um pouco ao passado e me lembro de que momentos antes da solenidade de colação de grau como Bacharel em Direito, em 1971, realizada no Tribunal de Justiça do Estado do Pará, eu participara de um Festival de Música, no auditório do SESC-Belém. De lá saí correndo para chegar a tempo de vestir a beca, receber o anel e o diploma de graduação universitária. E mais uma vez pude compatibilizar a arte de Euterpe com a vocação profissional pela espada de Têmis, como tenho feito até hoje.  Quando tomei posse como Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região e Coordenador do Colégio de Presidentes e Corregedores dos Tribunais Regionais do Trabalho do Brasil (dezembro/1998), proferi a oração A Toga e a Lira, pois a minha vida sempre esteve ligada à música, por tradição de família, e ao direito, por profissão, na magistratura e no magistério. Prestei homenagem aos magistrados trabalhistas brasileiros, no Hino da Justiça do Trabalho, que compus em 12.10.1998, dia seguinte ao Círio de Nazaré. O hino foi executado, em primeira audição, pelo Coral da Justiça do Trabalho e pela Orquestra Jovem Maestro Wilson Fonseca, sob regência de José Agostinho da Fonseca Neto, meu irmão, que agora também se faz presente. A orquestra e o maestro vieram de Santarém especialmente para o evento. A solenidade de posse foi entremeada de direito e música.O hinário no catálogo de minha obra musical registra composições dedicadas a instituições jurídicas e eventos ligados à ciência do direito, como é o caso do Hino da Justiça do Trabalho, oficializado, em âmbito nacional, pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho – CSJT (cf. Resolução nº 91, de 06.03.2012, publicada no Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho nº 934/2012, de 08.03.2012).Compus o Hino do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, da Academia Paraense de Música, da Academia de Letras e Artes de Santarém, da Academia Nacional de Direito do Trabalho, dentre outros.Um de meus mais acalentados sonhos de criança era ser maestro. A vida, porém, levou-me a outros destinos… Magistratura… Magistério… Produções literárias, sobretudo na área jurídica e no âmbito da música.Na verdade, porém, sou essencialmente músico (pianista e compositor).Pertenço a uma tradicional família de músicos. Sou neto e filho de músicos. Meu pai produziu mais de 1.600 composições, desde o popular até o erudito (inclusive várias Missas com o texto latino) e peças baseadas no folclórico amazônico.Compositor desde 1958 (com menos de 10 anos de idade), o catálogo de minha Obra Musical registra mais de 1.000 peças, em diversos gêneros (canto, coral, piano solo e a 4 mãos, violão, banda, conjuntos camerísticos para formações instrumentais e/ou vocais e peças orquestrais), a série de “Valsas Santarenas” (atualmente, 94 peças), o ciclo de canções sobre poemas de Fernando Pessoa, o ciclo de canções dedicadas a cantoras líricas e a “Sinfonia do Tapajós”.Mas quase tudo está praticamente inédito, não só devido às minhas atividades de magistrado e professor, mas também porque sempre dei preferência para divulgar a obra musical de meu saudoso pai (Wilson Fonseca – maestro Isoca).Outro dia me perguntaram em que escola, tendência ou corrente musical eu me classificaria, como compositor. Respondi, sem hesitar: considero-me essencialmente um compositor brasileiro e amazônico.  Algumas peças registradas no catálogo de minha obra musical revelam essa tendência, inclusive o ciclo de canções sobre o boto amazônico: 1. “A Lenda da Vitória-Régia” (letra de Emir Bemerguy) 2. “A Lenda da Mãe D’Água” (letra de Emir Bemerguy) 3. “Praça da Matriz” (letra de Emir Bemerguy) 4. “Rio-Símbolo” (letra de Felisbelo Sussuarana) 5. “Cantiga do Caapora” (letra de Felisberto Sussuarana) 6. “O Lago Espelho da Lua” (letra de Felisberto Sussuarana) 7. “Foi o Boto” (Letra de Felisberto Sussuarana) 8. “O Canto do Uirapuru” (letra de José Wilson Fonseca) 9. “Motivo Amazônico” (letra de José Wilson Fonseca) 10. “Águas” (letra de José Wilson Fonseca) 11. “O Rio” (letra de José Wilson Fonseca) 12. “Arraial da Conceição” (letra de José Wilson Fonseca) 13. “A Lenda do Tucumã” (letra de José Wilson Fonseca) 14. “Muiraquitã” (letra de José Wilson Fonseca) 15. “Cunhantã” (letra de José Wilson Fonseca 16. “Piracaia” (letra de José Wilson Fonseca) 17. “Corrida” (letra de João Luiz Sarmento) 18. “Marítima” (letra de João Luiz Sarmento) 19. “Batuque” (letra de Bruno de Menezes) 20. “Santarém” (letra de Milton Meira) 21. “A Lenda do Boto” – sairé (música e letra de Vicente Fonseca) 22. “A Corda do Círio” (música e letra de Vicente Fonseca) 23. “Procissão do Círio” (música e letra de Vicente Fonseca) 24. “Chorinho Pai D’Égua” (música e letra de Vicente Fonseca) 25. “Irurá” (música e letra de Vicente Fonseca) 26. “Navegando no Tapajós” (música e letra de Vicente Fonseca) 27. “Invernada_2” (letra e música de Vicente Fonseca) 28. “Sapecando Miudinho – Festa Mocoronga” (letra e música de Vicente Fonseca) 29. “Saudades de Santarém” (letra e música de Vicente Fonseca) 30. “Dança na Roça” (letra de Vicente Fonseca) 31. “Praias de Santarém” (música e letra de Vicente Fonseca) 32. “Modinha de Alter-do-Chão” (música e letra de Vicente Fonseca) 33. “Sairé de Santarém – Dança de Alter-do-Chão” (música e letra de Vicente Fonseca) 34. “Nurandaluguaburabara_2” (música e letra de Vicente Fonseca) 35. “Rapsódia Tapajônica” (música e letra de Vicente Fonseca) 36. “Uirapuru” (música e letra de Vicente Fonseca) 37. “Piracaia nº 2”  (música e letra de Vicente Fonseca) 38. “Valsas Santarenas” (atualmente, 94 peças) 39. “Sinfonia do Tapajós” (orquestra) 40. “Sonatina Amazônica” (arranjos camerísticos) 41. “Noturno Tapajônico” (arranjos camerísticos) 42. “Alter-do-Chão” (arranjo camerístico) 43. “Sairé” (arranjos camerísticos) 44. “Motivo Tapajônico” (arranjo camerístico) 45. “Flauteio – Ritual dos Botos” (duo para flauta e piano).46. “Fantasia Tapajônica” (quinteto de sopros).47. “Ritual Tapajônico” (quarteto para violino, viola pomposa, clarinete e fagote; e quarteto de cordas – peça em 8 movimentos)48. “Canção de Santarém_2” (Canto e Piano)49. “Batucando” (Piano; e Piano a 4 mãos)50. “Voz de Índio” (letra de Edgar Macêdo) – Canto e Piano 51. “Toada Caruana” (letra de Ignácio José de Castro Campos) – Canto e Piano52. “O boto lendário” (letra de Ignácio José de Castro Campos) – Canto e Piano53. “Encontro” (letra de Irmã Marília Menezes) – Canto e Piano. Inspiração no “encontro das águas” [Amazonas – Tapajós], em Santarém (PA)54. “Canção do Tapajós” (letra e música de Vicente Fonseca) – Canto e Piano55. “Festa do Sairé” (letra e música de Vicente Fonseca) – Canto e Piano56. “Meu Uirapuru” (letra e música de Vicente Fonseca) – Canto e Piano57. “Toada da Piracaia” (letra de Edwaldo Campos de Souza) – Canto e Piano; e Canto, Quinteto de Sopros, Percussão e Piano.E, para utilizar uma expressão tipicamente musical: vamos à coda.Prometo ocupar a Cadeira que me é confiada, neste Instituto, com dignidade, zelo e dedicação. Espero que o metrônomo da vida me ajude a marcar o andamento da convivência fraterna e harmônica com meus dignos confrades, com os quais tenho muito a aprender.  Peço a Deus me ilumine nesta nova caminhada e agradeço a presença de todos os convidados, amigos e parentes, com um carinho especial à minha esposa Neide, aos nossos três filhos Vicente, Adriano e Lorena, à minha nora Jussara, ao meu genro Fabrício e ao meu netinho Vicente. Concluo, enfim, sob a inspiração da letra do “Hino do Instituto Histórico e Geográfico do Pará”, que compus com voz do coração, a partir do belo texto poético de autoria do confrade e amigo Célio Simões, em homenagem a esta conceituada Instituição:HINO DO INSTITUTO E GEOGRÁFICO DO PARÁ (IHGP)Letra: Célio Simões (Belém-PA, outubro de 2012)Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 12.10.2012)
IDeste Instituto me sinto orgulhosoPor sua existência e sua memória,Que Domingos Rayol – o grandiosoDestinou a um futuro de glória!
IIAbrilhantam tua galeriaVultos de grande saberPela história, pela geografiaNem o tempo me faz esquecer.
IIIPara o nosso SodalícioCanto este hino de louvorAqui eu serei vitalícioE vitalício será meu amor.
IVSe o convívio fraterno nós temosE se o estudo pra nós nunca para,Pois, ergamos a voz e proclamemos:Viva Rayol, filho ilustre do Pará!(Viva Rayol, filho ilustre do Pará!) (…)Deus seja louvado!… Feliz Natal e Feliz Ano Novo a todos!

Compartilhe:

Campanha
Apoiadores
campanha