José Wilson Malheiros

Magistrado do Trabalho Aposentado, Advogado, Músico, Poeta, Compositor, Instrumentista, Professor, Jornalista e Escritor

Meu Compadre Tamaquaré

Estamos em época de férias. A tendência é que sejam procurados os balneários.
Nesta época, as pessoas, de todas as classes sociais, parecem até aves de arribação.
Saem em bandos no rumo das praias, das piscinas, do sol quente, dos biquínis e das bebidas geladas.
É uma liberdade geral. Vamos todos curtir nossa liberdade provisória, já que durante o ano todo ficamos encarcerados dentro de casa com medo da bandidagem.
Um compadre meu, do interior, o “seu” Antônio Tamaquaré, um sujeito meio paradão e abestado, encontrou comigo, me brindou com uma garrafa de andiroba e, papo vai, papo vem, chegou a me dizer que está quase virando bandido, pra ver se tem mais liberdade, mais regalia.
Eu disse: Não faça isso, compadre.
E ele me sentencia, bem atualizado, com toda a sua espontaneidade de homem interiorano:
Com um terço da pena cumprida o bandidão consegue ficar em liberdade, graças à ação dos advogados.
Hoje em dia ninguém mais fica 30 anos na cadeia, mesmo praticando os tais crimes hediondos, graças a essa tal generosidade das leis brasileiras.
Bandido pode sair da cadeia no dias das mães, no natal e em outros dias do ano.
Nós temos que ficar em casa, de portas e janelas gradeadas.
Bandido tem direito até a visita íntima, podendo ter mulher para manter relação sexual.
Pra nós aqui do lado de fora, tá difícil a coisa.
Bandido faz rebelião, quando a comida não está gostosa, o governo põe o rabo entre as pernas e bota comidinha boa lá para eles.
Se a gente aqui de fora quiser comer bem vai ter que trabalhar duro.
Bandido queima colchões e o governo providencia outros, novos, imediatamente, para que eles não durmam no chão.
Nós temos que dormir na rede suja, rodeada de carapanãs.
Bandido tem sempre a proteção da Comissão dos Direitos Humanos que só existe para eles…
Bandido pode atirar e matar policial, mas se policial atirar e matar bandido sofre toda a pressão da imprensa e da sociedade.
E nós não podemos andar com um mísero canivetinho no bolso.
Bandido rico tem dinheiro para contratar advogado que anda de carro importado pra não ir para a cadeia.
Bandido pobre, por não ter dinheiro, resolve logo praticar um crime bem pavoroso, pra sair na primeira página do jornal e na televisão, porque tem certeza de que sempre vai aparecer um advogado, que gosta de estar em evidência, que se oferecerá para defendê-lo.
Quando eu já ia saindo, ele me chamou e me deu de presente um tanto de piracuí feito de acari, o melhor que tem.
Agradeci e voltei pra casa pensando nas idéias desse meu compadre.
E não é que ele tem razão?

Uma Ópera no Além

Afirma-se, com toda a razão, que hoje em dia o que não sai publicado na imprensa, não existe. Então, com a finalidade de deixar gravado para o futuro, dou a público, agora, aproveitando a ocasião, um fato que merece ser mencionado na biografia do maestro.
Neste vinte e quatro de março o Maestro Wilson Fonseca (Izoca) completou sete anos de falecido. No início do ano passado um grupo de interessados manifestou a vontade de conhecer melhor a ópera do compositor, que tem libreto e arranjo orquestral de minha autoria, pois Izoca, ao encerrar essa obra, infelizmente não teve mais condições físicas de fazer a orquestração.
Em uma das reuniões, um fato incomum aconteceu. Veja o texto da declaração que tenho em meu poder:
“DECLARAMOS que no mês de abril/2008 estivemos reunidos, uma tarde, na residência de José Wilson Malheiros da Fonseca, em Belém Pa., mais precisamente da dependência que ele denomina de “gabinete”.
Passamos a tarde vendo e escutando as partituras da ópera Vitória Régia, um Amor Cabano, música de Wilson Fonseca (Izoca).
Estavam presentes, entre outras pessoas, Célia Maracajá, Luiz Arnaldo, Maestro Martinho Lutero (brasileiro, que vive na Europa), José Wilson e sua esposa Damea.
Quando acabamos de ver, escutar e comentar o libreto e as partituras, mais ou menos pelas seis da tarde, o computador foi totalmente desligado. Não havia, na casa, mais nenhum aparelho eletrônico ligado, nem rádio, nem televisão, aparelho reprodutor de CD, cassete etc, estando também a máquina filmadora da Célia (que nem foi usada nessa ocasião), desligada. Tudo isto foi verificado minuciosamente pelos presentes.
Em dado momento começamos a escutar, dentro do gabinete, com grande nitidez e com razoável volume, uma voz de tenor operístico a cantar uma ária que não conseguimos identificar.
Ao chegarmos perto da “voz” sentíamos como se estivéssemos perto do “cantor”. Todos ficaram perplexos.
Esse fenômeno durou mais ou menos meia hora. A sensação era de que alguém, que não podíamos ver (apenas escutar) estava ali bem próximo de nós, cantando, mesmo.
Atestamos que o acima relatado é verdade.
Assinam o documento como testemunhas presenciais (tudo reconhecido em cartório):
Luiz Arnaldo Dias Campos, produtor cultural, cineasta. Célia Maracajá, produtora cultural, atriz. Damea Gorayeb S. Fonseca, professora”.
A coincidência se repete: no início do século vinte, como atesta bibliografia abundante, um maestro e professor recém chegado da Itália também assistia, em companhia de pessoas ilustres da sociedade da época, os fenômenos espirituais que ocorriam em Belém na casa do casal Eurípedes e Ana Prado.
O maestro era Ettore Bosio, que inclusive bateu algumas fotos que estão na internet.
Fica, portanto, registrado o fato. Onde não se pode criticar, todos os elogios são suspeitos. Fique à vontade para emitir sua opinião sobre o fato.

 

As culpas do Carnaval

O Carnaval acabou. Saudade imensa dos carnavais da minha juventude, quando eu ainda tocava saxofone, gostava de pular nos salões e as marchinhas de duplo sentido eram inocentemente cantadas, quando os blocos de sujo andavam pelas ruas vestidos de “mascarado fobó” e meu pai comprava máscaras para nós ali no Café Chic, em Santarém.
Sem saudosismos, o Carnaval autêntico de hoje é um ato de resistência contra a indústria das escolas de samba, dos abadás e coisas do gênero. É um ato de heroismo em favor da espontaneidade e do verdadeiro Momo.
A propaganda das agências de viagem é que todo brasileiro gosta de carnaval, pois tem alegria, tem colorido, tem mulata, bunda, peito, sexo, cerveja, turista, dinheiro, praia, e principalmente um longo feriado.
Mas, gostar de Carnaval, ao contrário dos arautos do apocalípse, não é o caldeirão do inferno.
Refiro-me àquela brincadeira em família reunida, fantasiada, curtindo-se mutuamente o que, digo logo, é uma raridade hoje em dia.
O filósofo alemão Nietzsche fala sobre a importância do fútil, do frívolo e do inútil, principalmente em uma sociedade cuja a preocupação fundamental é com o trabalho e com o ganha pão.
Ora, se não fossem o fútil, o frívolo e o inútil, aí sim, nossa vida seria uma chatice sem tamanho, pois quem quer viver só para trabalhar? Quanto ao resto das críticas ao carnaval é realmente de se questionar se é válido sentir culpa por ousar gostar da festa.
Se você brincou carnaval de maneira sadia, com sua família, com seus amigos, para esquecer, um pouco, as agruras da vida, não sinta complexo de culpa.
Não caia na armadilha daqueles que querem te impor, para te dominar, um sentimento de culpa que em realidade você nem está sentindo.
Minha avó dizia que “um triste santo, é um santo triste”. Não acredite em máscaras usadas fora do ambiente carnavalesco para aparentar suposta seriedade.
Os santinhos do pau ôco são os piores. Se você brincou seu Carnaval de maneira sadia, estenda sua alegria pelo ano todo e fique de cabeça erguida porque Deus não pune ninguém por ter uma alegria sã.

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