Gabriella Florenzano

A Livraria Lello

Foto Alexandre Baena

Confesso para vocês que morro de orgulho por um dos principais pontos turísticos da cidade em que escolhi viver ser uma livraria e que, se posso ostentar algo, é tê-la como a “de casa”. O edifício neogótico é o cenário perfeito para a Livraria Lello, uma fonte de arte e conhecimento portuense desde 13 de janeiro de 1906 na Rua das Carmelitas e uma das mais antigas do mundo em funcionamento. Projetada pelo engenheiro Xavier Esteves, a Lello é considerada por diversos meios de comunicação e intelectuais como uma das livrarias mais bonitas do mundo, quando não a mais. Desde 2016 a livraria recebe mais de um milhão de visitantes por ano, bastante impulsionada pelo fato de J.K. Rowling, que viveu cá no Porto entre 1991 e 1993, ter se inspirado nela e em diversos outros elementos da cultura portuguesa para a saga de Harry Potter. Para entrar é necessário comprar um voucher de €5, a ser descontado no valor de um livro. Eu escolhi “Os Maias”, de Eça de Queiroz. 

I must confess that I very proud because one of the main tourist attractions in the city that I chose to live in is a bookstore. The neo-gothic building is the perfect scenarium for the Lello Bookstore, a source of art and knowledge since January 13, 1906, in Rua das Carmelitas and one of the world’s oldest bookstores in operation. Designed by the engineer Xavier Esteves, Lello is considered by many media and intellectuals as one of the most beautiful bookstores in the world, if not the most. Since 2016, the bookstore has received over one million visitors a year, maybe driven by the fact that JK Rowling, who lived here in Porto between 1991 and 1993, was inspired by it – and many other elements of Portuguese culture – for writing the Harry Potter saga. To visit is necessary to buy a voucher of € 5, to be discounted in the value of a book. I chose “The Maias”, by Eça de Queiroz.

Conto Vampiro

Esta história não é real, mas poderia ter sido.

Era noite. Há séculos não sabia o que era acordar com os raios de sol. Seus olhos haviam se acostumado a seguir a luz da lua, e era ela quem guiava seus anseios, sua trilha, todo dia.

Naquela noite, no entanto, diferente de todas as outras, não gastava seus poderes hipnóticos para sugar algo de interessante de algum boy ou garota entediados com sua própria solidão modernosa e cheia de luxúria. Fazia algo que havia desaprendido a fazer: olhava pra si mesma, aquela alma velha no corpo da menina que queria ser a mulher que nunca se tornaria.

Sob a luz do luar, naquela noite, fazia aquilo que corria em suas veias vibrar. Podia ouvir o sangue em cada uma daquelas pessoas sentadas na grama do parque, o pulsar de seus corações impacientes pelo gelo que consumia sua pele.

No mundo inferior era tudo muito diferente. Suas horas de consciência eram quase tão inertes quanto o seu desnecessário descanso e sentir, em todo e qualquer aspecto físico e filosófico, não era uma opção real. Sede de vida era tudo aquilo que tinha de real.

Mas a escuridão teimava em abraçar todas as suas tentativas.

O pulso de quem teima em se inventar é onda de preamar, impossível saber até aonde vai levar.

Não sabia dizer se havia passado segundos ou anos naquele estado de contemplação. O tempo a havia amaldiçoado com o eterno meio-termo entre perder e ganhar. E, do tempo, ia ganhando tempo.

Quase num transe, sentia o cheiro dos pensamentos amorosos e mesquinhos, delicados e retumbantes, renegados e exauridos. E, com suas presas malignas, ia nutrindo todo o ar que revivia seu corpo em toda a dissonância que aquelas madeiras empenadas propunham em sua sinfonia dodecafônica.

Sentiu o gosto do sangue na boca. A plateia levantou, em clamor. E foi ali que finalmente se fez imortal.

I JUST WANNA THANK YOU

Rochester, NY, 14 de maio de 20017

Hoje tive uma daquelas experiências únicas da vida. Dia das mães, cá eu longe da minha, na cinzenta Rochester, resolvo finalmente realizar uma vontade que tenho desde a infância: assistir a um serviço religioso afro-americano, daqueles que vemos nos filmes e propagandas de margarina, com coros de vozes espetaculares capazes de derreter o mais cético dos corações.

Mas, antes de qualquer coisa, preciso contar algumas coisas sobre o lugar que estou. Rochester, durante a Guerra Civil norte-americana, abrigou vários refúgios da chamada Undergound Railroad (Ferrovia Subterrânea), uma rede secreta que ajudava os escravos a escaparem para a América do Norte Britânica (atual Canadá), onde a escravidão era proibida. Aqui, no século XIX, surgiu o “North Star” (Estrela do Norte), jornal fundado pelo ex-escravo e líder abolicionista Frederick Douglass, que tinha como slogan “Right is of no Sex – Truth is of no Color – God is the Father of us all, and we are all Brethren” (O Direito não tem sexo – A Verdade não tem cor – Deus é o Pai de todos nós e somos todos Irmãos) e que propagava não só a luta pela igualdade racial, mas também pela de gênero. Rochester também é mãe do movimento sufragista norte-americano e de George Eastman, que inventou o rolo de filme, fundou a Kodak e tornou possível a faculdade de Música da Universidade de Rochester, batizada em sua homenagem como Eastman School of Music e o grande motivo por eu me encontrar aqui. Nada mau para uma cidadezinha que, no seu último censo, em 2010, registrou pouco mais de 200 mil habitantes. Mas voltemos ao assunto desta crônica: dia das mães, música e o Divino.

Katherine (Ciesinki, mezzosoprano, grande diva e minha professora) foi quem me levou até a Igreja Batista Mount Olivet. Eu nunca fui uma assídua frequentadora de celebrações religiosas, mesmo as da Igreja Católica, religião com que eu fui criada, a não ser durante a minha adolescência quando cantava nas missas do Colégio Marista. Meu encontro com Deus sempre foi muito pessoal, com a minha voz e a minha música. Entrei sozinha, extremamente tímida e sem saber ao certo como agir e fui recebida com uma flor. “Não sou mãe”, eu disse, e um dos simpáticos senhorzinhos que recebiam na porta respondeu “mas você conhece o amor de mãe, pelo menos o da sua, não é verdade? É o amor que importa”.

É só o amor que consegue fazer com que uma comunidade que passou (e infelizmente ainda passa) por tanta coisa herdada da escravidão e do preconceito continue leve, dançante, agradecendo por cada despertar. Eu era a única pessoa de pele branca na igreja. É claro que a “brancura” muda de perspectiva ao dizer que sou brasileira, mas ainda assim vários membros, antes de saberem da informação – ou ouvirem meu sotaque – vieram a mim, com sorrisos nos olhos, me dar boas-vindas. Daquelas que você sabe que são de coração.

O dia era delas, e elas eram lindas, em suas roupas coloridas, luvas, chapéus e sorrisos para todos os lados. E eles subiram ao altar para cantar em homenagem a elas, com suas vozes potentes e viscerais, vestidos de ternos e swing. E eu, junto com todos, em oração e lágrimas, agradeci por ontem, hoje e amanhã. E me extasiei com um sermão que, mesmo com um conteúdo um pouco além do que o meu espírito racional me permite, começou falado e terminou surpreendentemente cantado. Palavra e música juntos ao encontro de Deus.

Nunca vou me esquecer deste dia das mães, mesmo longe da minha. Nunca vou esquecer da senhorinha que me abraçou e disse “não sou a sua, mas quem é mãe sempre tem amor pra dar”. E nunca vou me esquecer da Katherine indo me buscar na igreja para me levar para a escola e me dar uma aula antes de voltar para sua casa e seu marido, ela que não gerou em seu ventre mas resolveu ser mãe em música de alguns sortudos, dos quais eu felizmente faço parte. E é em coro com os spirituals entoados pelas fabulosas vozes desta manhã (e também com as animações florais de mídias sociais) que eu termino meu dia agradecendo, de novo. Agradecendo por mais este pôr-do-sol cor-de-rosa aqui e pelas próximas alvoradas que realizarão outros sonhos, por onde a Música me levar.

Gabriella Florenzano

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