Valsas Santarenas

Desde que me entendo como gente, vejo-me tocando piano, sob a orientação de meu pai (Wilson Fonseca, Maestro Isoca), que me despertou o gosto pela música.

Papai me dizia que, quando muito criança ainda, eu gostava de ouvir Chopin (1810-1849), principalmente as suas belas valsas. Sempre tive uma predileção, que vem desde aquela época, pela música do balé “Les Sylphides”, peça orquestral extraída de obras para piano do gênio polonês (prelúdio, noturno, mazurcas, polonaise e valsas), com arranjos de diversos compositores (Alexander Glazunov, Roy Douglas e outros). Com meu pai e em companhia de meus irmãos Conceição e Agostinho Neto executamos peças para piano a 4 mãos, em Santarém, na década de 50 do século XX, notadamente em recitais no Centro Recreativo.

Foi ainda com tenra idade que escrevi a minha primeira composição, a que dei o título de “Experimentar”, em 1958, e dediquei ao meu tio Wilmar Fonseca, autor da letra da “Canção de Minha Saudade”, com música de Wilson Fonseca. Até hoje guardo a partitura daquela “relíquia”.
Nem a propósito, alguns anos depois (1962-1963), fui morar com meu tio Wilmar, em São Paulo, onde estudei no Conservatório Musical “Padre José Maurício”, dirigido pelas Professoras Rachel e Gioconda Peluso, santarenas. Foi ali que mantive contatos com obras do paulista Francisco Mignone e do amazonense Arnaldo Rebello, os quais tive o privilégio de conhecer pessoalmente.

De volta a Santarém, em 1964, organizei o conjunto musical “Tapajoara”. Nessa ocasião, eu tocava trombone de piston e barítono. No ano seguinte, dirigi o quarteto vocal “Os Tapajônicos”. E até 1966 integrei a Banda Marcial do Colégio “Dom Amando”, executando barítono. Na mesma época, fiz parte da Banda de Música “Prof. José Agostinho”; e toquei teclado digital num conjunto musical criado pelo Odilson Matos (“Os Hippies”) e no “cast” do programa de calouros promovido pela Rádio Rural, dirigido pelo Ércio Bemerguy (“Domingo Após a Missa”), na Casa Cristo-Rei.

Essas atividades contribuíram para a minha formação musical, ao lado dos estudos da música erudita e do gosto que sempre tive pelo choro, samba, bossa-nova (Tom Jobim, Chico Buarque e outros).

Em 1967 vim para Belém cursar Direito, na Universidade Federal do Pará. Fui jurado em festivais de música promovidos pela Faculdade de Direito e pela Casa da Juventude, onde morei quando universitário. Participei de concursos de composição. Entretanto, sempre mantive estreitas ligações com Santarém, onde ajudei a organizar o 1º Festival de Música do Baixo Amazonas (1970). No dia de minha colação de grau em direito (1971), eu estava participando de um festival estudantil. Em 1972 atuei na famosa “Semana de Santarém”, nesta capital, onde me apresentei, pela primeira vez, no Theatro da Paz, em companhia de amigos e parentes, tocando piano, violão e até cantando. Na ocasião, foi executada a peça “Acalanto”, de minha autoria, interpretada pelo Madrigal e Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Pará.

Esse vínculo com a terra querida despertou-me a vocação de compositor. Embora residindo em Belém, muitas de minhas composições foram feitas na “Pérola do Tapajós”, na casa de meus pais, onde eu passava deliciosas férias. Ah! Aqueles pianos, aquelas paisagens, aquele clima mocorongo…
Em 1973 ingressei na magistratura trabalhista, numa época em que a Justiça do Trabalho da 8ª Região tinha jurisdição sobre toda a Amazônia, do Pará ao Acre. E por motivos profissionais, funcionei, como magistrado, em diversas cidades desta imensa Região Norte do Brasil.

A música, porém, sempre foi a minha grande paixão, além de minha família.

Compositor desde, pelo menos, 1958 (lá se vão 59 anos, quem diria…), escrevi peças musicais em diversos lugares onde morei ou estive apenas de passagem. Já são mais de 1.000 obras, em diversos gêneros.

A grande maioria de minhas composições foi elaborada em Santarém e em Belém. Mas lembro-me de que também já compus músicas nas cidades de Boa Vista (RR), Manaus, Macapá, Abaetetuba, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Campos do Jordão, Florianópolis, Bonito (MS), Fortaleza, Marabá etc., até no exterior, como Madrid (Espanha), Lisboa (Portugal), Lyon e Chamonix – Mont-Blanc (França). Cheguei até a iniciar uma composição numa cidade, prosseguir na outra e concluir numa terceira.

Por exemplo, a “Valsa Santarena nº 62” foi composta em Marabá, onde estive para proferir a conferência de abertura no Seminário “Os novos rumos do processo do trabalho diante das reformas constitucional e processual civil”, em outubro de 2007, promovido pela Escola da Magistratura da Justiça do Trabalho da 8ª Região e Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região. A esta valsa dei o subtítulo de “Itinerante”, por sugestão da servidora Karla Paes, Assessora em meu Gabinete, no TRT-8.

Falarei, então, um pouco mais sobre a série de “Valsas Santarenas”.
Por muitos anos venho compondo a série de “Valsas Santarenas”, inspiradas na minha terra natal, destinadas a piano solo, mas com alguns arranjos camerísticos, inclusive violão, flauta, e uma para coro e orquestra.

Meu pai fez a transcrição das primeiras vinte valsas para violino solo.
A primeira “Valsa Santarena” foi composta, com esse título, em 1981, em Santarém. Mas eu incorporei à coletânea outras que eu havia composto desde 1972.

Diversas “Valsas Santarenas” possuem letras, todas elaboradas por mim: 33, 42, 47, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 59, 61, 62, 68 e 94 (algumas com subtítulos).

Não nego que, ao compor as “Valsas Santarenas”, sofri influências de meu avô José Agostinho da Fonseca (valsa “Tapajônia”), de meu pai (“Pérola do Tapajós” e outras), de Francisco Mignone (“Valsas de Esquina”) e de Arnaldo Rebello (“Valsas Amazônicas”).

Assim como o compositor paulista Francisco Mignone tem as suas “Valsas de Esquina” e o músico amazonense Arnaldo Rebelo, as suas “Valsas Amazônicas”, eu venho compondo uma série de “VALSAS SANTARENAS”, desde a década de 70 do século passado.

Atualmente, a coletânea abrange 109 peças (setembro/2017).

Certa vez, quando esteve em Belém, por volta de 1985, a Profª Rachel Peluso, compositora paraense, que vivia em São Paulo (já falecida), solicitou-me, para exame, algumas dessas “Valsas Santarenas” (1 a 24). Pouco tempo depois, ela enviou-me uma carta, com a devolução das partituras das valsas. Nessa oportunidade, a saudosa musicista santarena fez não apenas uma abalizada análise daquelas minhas composições, como também sugeriu diversos “subtítulos” para cada música.

Rachel Peluso recomendou que a série daquelas 24 Valsas Santarenas fosse reunida sob o título de “Coleção Santarena”. Ela revelou-me que os subtítulos foram inspirados após ela própria tocar, ao piano, cada uma dessas “Valsas Santarenas”, quando pôde melhor sentir o espírito e o clima de cada composição.

É oportuno confessar que guardo com muito carinho esse “tesouro”, que considero uma verdadeira “relíquia”, porque se trata de material escrito do próprio punho, pela querida e saudosa amiga, compositora e conterrânea, sobre os manuscritos de minhas composições.

Ela ainda sugeriu a colocação de alguns pedais e outros sinais de dinâmica para as peças, haja vista o seu propósito e dedicação no sentido de aperfeiçoar as composições de seu ex-aluno.

Eis a relação das citadas composições (24 primeiras “Valsas Santarenas”) de minha autoria, anotadas pela Profª Rachel Peluso e com os subtítulos por ela sugeridos: Valsa Santarena nº 1 – “Praia dos Namorados”; Valsa Santarena nº 2 – “Revoada das Garças”; Valsa Santarena nº 3 – “Rio Tapajós dos Meus Sonhos”; Valsa Santarena nº 4 – “Saudosa Vera-Paz”; Valsa Santarena nº 5 – “Eterno Bailado dos Rios, Tapajós e Amazonas”; Valsa Santarena nº 6 – “Formosa Tapúia”; Valsa Santarena nº 7 – “Vitória-Régia”; Valsa Santarena nº 8 – “Seresta do Caboclo”; Valsa Santarena nº 9 – “Gorjeio do Jurutaí”; Valsa Santarena nº 10 – “Ilha Encantada”; Valsa Santarena nº 11 – “Sinfonia das Matas Selvagens”; Valsa Santarena nº 12 – “Noite de Luar”; Valsa Santarena nº 13 – “Coração Saudoso”; Valsa Santarena nº 14 – “Céu de Estrelas”; Valsa Santarena nº 15 – “Encontro das Águas”; Valsa Santarena nº 16 – “Meu Violão”; Valsa Santarena nº 17 – “Flores Silvestres”; Valsa Santarena nº 18 – “Em Cada Coração, Saudade de Santarém”; Valsa Santarena nº 19 – “O Canto da Mocoronga”; Valsa Santarena nº 20 – “Alvorada da Floresta Amazônia”; Valsa Santarena nº 21 – “Belém, Expressão das Artes”; Valsa Santarena nº 22 – “Serenata ao Luar”; Valsa Santarena nº 23 – “Melodia do Amor”; e Valsa Santarena nº 24 – “Sol Poente”.

Além disso, para a “Valsa dos Setenta Anos”, que dediquei ao meu pai, em 1982, ela sugeriu que se iniciasse outra Coletânea, com o título de “Amor e Arte”, e idealizou o subtítulo de “Valsa Romântica nº 1”. E, ainda, para outra valsa que dediquei à minha filha caçula (“Lorena”), ela sugeriu a criação de outra Coletânea, com o subtítulo de “Canção de Ninar”. Também compus valsas em homenagem à minha esposa Neide (1974) e aos meus filhos Vicente (“15 de Dezembro”) e Adriano (“9 de Janeiro”) e diversas para minha mãe.

Dediquei a “Valsa Santarena nº 39” à Rachel Peluso; e a “Valsa Santarena nº 41” à Gioconda Peluso, musicistas santarenas. Outras valsas foram dedicadas a diversos outras pessoas ligadas à Arte de Euterpe.

Enfim, eu continuei compondo, dentre outras peças, a série de “Valsas Santarenas”, pois também recebi muito incentivo e preciosos ensinamentos de meu saudoso pai (Wilson Fonseca – MaesQuando papai faleceu, eu havia chegado a 50 “Valsas Santarenas”. E revelei a ele que já era hora de encerrar essa série. Ele me disse: não pára; continua, sempre que houver inspiração.

E a “Valsa Santarena nº 51” eu fiz no próprio hospital, onde meu pai foi internado, em decorrência de uma queda que sofreu, com 89 anos de idade, em março 2002. Cerca de 10 dias depois ele faleceu, em Belém, onde estava na ocasião, pois havia sido homenageado com o recital “Encontro com Maestro Isoca”, em janeiro daquele ano. O recital foi gravado, ao vivo, e deu origem ao CD com o mesmo nome do recital.

Eu senti, quando compunha aquela “Valsa Santarena nº 51”, que estava fazendo uma espécie de “réquiem” para meu próprio pai. Parece premonição. Não sei como tive forças para tocar essa música, na Missa de Corpo Presente, em Santarém. O sepultamento dele lembra das homenagens póstumas para o Presidente Tancredo Neves e o piloto Ayrton Senna: uma apoteose, em Santarém. Ele era muito querido por todas as classes sociais.

Foi em Santarém que resolvi dar um subtítulo à “Valsa Santarena nº 51”. O subtítulo é “Lira Iluminada”.

Papai compôs, em 1941, a valsa “Lira Adormecida”, para seu pai (meu avô, José Agostinho da Fonseca), quando o velho ZéAgostinho caiu doente e não pôde mais fazer o que mais gostava: compor.

Quando meu avô morreu, papai compôs a “Lira Partida” (1945).

Em exatos 6 meses antes de papai falecer, eu havia composto a “Valsa Santarena nº 48”, com o subtítulo de “Lira Renovada”, pois papai havia se recuperado de um problema de saúde, em Santarém.

Ele chegou a ver as minhas Valsas Santarenas de nºs. 49 e 50. E gostou.

Quando papai foi sepultado, havia um luar muito bonito, em Santarém.

Tudo isso me levou a subintitular a “Valsa Santarena nº 51” de “Lira Iluminada” (cuja partitura deixei em seu jazigo). Em abril de 2002 fiz a letra. Depois fiz vários arranjos para esta composição, sobretudo para conjuntos camerísticos.

E continuo compondo essa série de “Valsas Santarenas”, graças aos incentivos de papai e da Profª Rachel Peluso, dois grandes mestres da Arte de Euterpe.

A “Valsa Santarena nº 55” (Coro e Orquestra) foi executada no Festival Música das Esferas de 2007, realizado nas cidades de Bragança Paulista e Serra Negra (SP), pela Orquestra Filarmônica e o Coral da Casa de Cultura Santo Amaro, de São Paulo – a quem a peça foi dedicada –, sob a regência da Maestrina Sílvia Luisada.

Em suma, a série de “Valsas Santarenas” sempre tem como motivação a nossa terra natal (Santarém-PA).

Foi justamente na minha infância que mais ouvi tantas serenatas (serestas), em Santarém, inclusive aquelas cantadas pelo tenor Joaquim Toscano ou seu filho, Expedito Toscano (tenor), e outros seresteiros que se notabilizaram na nossa “Pérola do Tapajós”.

Confesso que nunca esqueci esse momento mágico na minha infância. Eu ficava ouvindo, maravilhado, as canções entoadas por esses talentosos seresteiros, nas madrugadas enluaradas, em Santarém. Que saudade!…

Essa época, tão gostosa, é precisamente o que mais me inspira na criação dessas “Valsas Santarenas”, segundo já revelei outras vezes.

A “Valsa Santarena nº 88” (Quinteto de Sopros e Piano) foi executada, em primeira audição, pelo “Sexteto de 7”, no 48º Festival Villa-Lobos, que se realizou em novembro de 2010, na Sala Villa-Lobos, no Rio de Janeiro (RJ), e incluída na gravação do primeiro CD do grupo, em 2011. Criado em 1961, o Festival Villa-Lobos promove a obra de Villa-Lobos e de outros compositores brasileiros através de concertos sinfônicos, de câmera e de espetáculos de música popular e dança, um dos eventos de maior tradição no circuito musical brasileiro.

A “Valsa Santarena nº 77” (Quinteto de Metais), composta originariamente numa Sexta-Feira Santa, em 2009, tem o clima de obra sacra. Foi dedicada ao Maestro José Agostinho da Fonseca Neto, meu irmão, que dirige, em Santarém, o Instituto “Maestro Wilson Fonseca” (Música, Dança e Teatro), o Coral, a Banda Sinfônica e a Orquestra Sinfônica “Maestro Wilson Fonseca”. A melodia desta valsa foi aproveitada, pelo compositor, para a elaboração da peça “Maria – Ave Maria dos Migrantes” (Coro a 4 vozes mistas e órgão de tubo, com pedal), vencedora do Concurso Nacional de Composição de Música Sacra, promovido, em 2010, pela Paróquia Nossa Senhora de Boa Viagem – Igreja Matriz de São Bernardo do Campo (SP), em comemoração aos “200 anos de criação da Paróquia – 1812/2012”. Foi gravada, com o arranjo para Quinteto de Metais e Percussão, pelo Grupo “Bronzes da Amazônia”, no CD “Toca Pará” (2015).

A “Valsa Santarena nº 102” (Duo para Corne Inglês e Piano) e a peça “Uirapuru” (Duo para Oboé e Piano – homenagem in memorian de Gabriel Luciano Trench, genitor do musicólogo e jornalista Luís Roberto von Stecher Trench), de minha autoria, foram incluídas no concerto promovido pelo Projeto Música na Biblioteca, no Memorial da América Latina, em São Paulo, em 02 de maio de 2017, executadas pelos professores paulistas Gilson Barbosa (oboé e corne inglês) e Arlete Tironi Gordilho (piano), que devem gravá-las em CD.

As Valsas Santarenas nº 75 (“Seresteira”), 88 e 101 constam do projeto de gravação do CD “Família Fonseca: Do erudito ao popular” (Wilson Fonseca e Vicente Fonseca), pelo Trio “Pessatti-Rosati-Milhomens”, integrado pelos músicos Frederico Mendes de Oliveira Mil Homens (flauta), Samuel Pessatti (violoncelo) e Cleusa Marisa Rosati (piano), que atuam em Cuiabá (MT) e Curitiba (PR).

A pianista gaúcha Carla Ruaro, que reside em Portugal, onde frequenta o Curso de Doutorado em Performance Musical da Universidade Nova de Lisboa, incluiu as Valsas Santarenas nº 86 e 107 no projeto de gravação do CD e DVD “Floresta – Um Piano na Amazônia”, que também contém músicas de Wilson Fonseca (Maestro Isoca), meu saudoso pai.

Meu sonho é um dia gravar a série completa das “Valsas Santarenas”. Quem se habilita para interpretá-las?

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