Sinfonia do Tapajós

A inspiração continua em alta. Depois da “Sonatina Amazônica” compus agora a “Sinfonia do Tapajós”. Trata-se de uma peça para orquestra sinfônica (Flautim, 2 Flautas, 2 Oboés, 2 Clarinetes, Clarinete Baixo, 2 Fagotes, 4 Trompas, 2 Cornets, 2 Trompetes, 2 Trombones, Trombone Baixo, Eufônio, Tuba, Vibrafone, Tímpanos, Bombo, Caixa, Pratos, 2 Violinos, Viola, Violoncelo e Contrabaixo), com seis movimentos: Abertura (Andante Maestoso); Brincando na beira do rio (Adágio); Realejo (Andante); Oração (Andante Religioso); Hino de Amor; Coda (Largo); e Final Triunfal (Maestoso).
Costuma-se dizer que a sinfonia é uma espécie de sonata para orquestra. A evolução da sinfonia acompanha a história da música erudita. A sua origem está no “concerto grosso”, que predominou no período barroco. Bach (“Concertos de Brandenburgo”) e Haendel elaboraram várias peças nesse estilo.
Na ópera italiana do início do século XVIII, chamava-se de sinfonia a peça instrumental utilizada para a sua abertura. Com o tempo, a sinfonia tornou-se obra independente. Alguns compositores adotam a palavra sinfonia para qualquer peça musical destinada a grupo orquestral ou até mesmo para conjuntos de câmera.
Atualmente, a expressão “concerto” (que também se presta para denominar o espetáculo musical, em geral) é utilizada para a obra destinada a um, dois e até três instrumentos solistas (como piano, violino, violoncelo etc.) e orquestra.
Beethoven foi o primeiro compositor a introduzir, em sua festejada 9ª Sinfonia, partes para coro e vozes solistas, inspirado na “Ode à Alegria”, do poeta Schiller, uma das mais admiráveis composições na história da música sinfônica.
Na teoria musical da idade média, a palavra sinfonia (symphonia, em latim) significava “consonância”. Ou seja, consonância de sons produzidos por diversos instrumentos, numa orquestra.
Os mestres consagrados do gênero são Haydn, Mozart e Beethoven. Mas não se pode deixar de fazer referência especial às monumentais obras sinfônicas de Brahms, Schubert, César Franck, Bruckner, Mahler, Tchaikovsky, Nielsen, Richard Strauss, Shostakovich, Stravinsky e Messiaen, apenas para citar os mais conhecidos.
Depois dessa viagem pelo mundo da música, voltemos às coisas nossas.
Embora Santarém desfrute de reconhecida tradição na arte de Euterpe, por haver produzido excelentes músicos, ainda não dispõe de uma orquestra sinfônica (coisa rara, no Brasil), que exige a importantíssima participação dos instrumentos de cordas, verdadeira “alma” do conjunto orquestral: violinos, violas, violoncelos e contrabaixos.
Sei do esforço que meu irmão José Agostinho da Fonseca Neto (Maestro Tinho) vem desenvolvendo para implantar na Pérola do Tapajós a primeira orquestra sinfônica do interior da Amazônia, quando conseguir realizar o tão sonhado “projeto cordas”, para introduzir aqueles maravilhosos instrumentos na primorosa Orquestra Jovem “Wilson Fonseca”, ora integrada por instrumentos de sopros e percussão.
Qualquer compositor estará mais bem motivado se puder dispor de intérpretes para a execução de suas obras, não raro compostas para circunstâncias.
A obra musical de meu avô José Agostinho da Fonseca (1886-1945) registra a valsa “Sinfonia do Amor” (1912-14), para piano solo. Ele compôs peças para bandas, conjuntos de camerísticos e orquestras de baile, mas muita coisa se extraviou.
Na magnífica obra musical de meu pai Wilson Fonseca, Isoca (1912-2002), destaca-se a composição “Centenário de Santarém”, uma abertura sinfônica, produzida em 1948. Meu saudoso pai contava que ele começou a escrever os primeiros compassos desta peça quando eu estava nascendo (talvez seja por isso que eu tenho uma predileção especial por esta composição). A composição foi criada especificamente para a comemoração do centenário de Santarém, elevada à categoria de cidade, em 24 de outubro de 1948. Naquele ano, a obra foi executada por uma pequena orquestra, dirigida pelo próprio compositor. Todavia, a obra já foi exibida em Belém, pela Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Pará (durante a extraordinária “Semana de Santarém”, em 1972) e pela Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz (no ano de 1997, na inauguração da temporada anual da OSTP e no programa em homenagem ao transcurso do primeiro centenário de morte do Maestro Carlos Gomes). Posteriormente, papai escreveu duas transcrições, uma para piano solo e outra para piano a 4 mãos. Quando jovem, toquei estas duas peças, em apresentações públicas, em Santarém. A transcrição para piano a 4 mãos, em recital no Centro Recreativo, em companhia de meu pai.
Segundo o próprio compositor, a notável obra “Centenário de Santarém” é uma abertura sinfônica. Na teoria, a abertura sinfônica é uma espécie de peça autônoma, geralmente com apenas um movimento. Servem de exemplos as aberturas “Egmont”, de Beethoven; “Trágica”, de Brahms; e “1812”, de Tchaikovsky.
Ocorre que a música “Centenário de Santarém” compõe-se de diversos movimentos. Por isso, eu sempre fiquei intrigado com a classificação de simples “abertura sinfônica”, adotada pelo compositor Wilson Fonseca.
Lembro-me de que cheguei a ver meu pai registrar, em antigos escritos, o título de “Sinfonia do Centenário”, que talvez fosse mais adequado ao gênero da obra.
Neste ano de 2006 ocorrerá um evento histórico na vida cultural de Santarém. No mês de junho comemora-se o aniversário de Santarém, em nova data (22) instituída com base em pesquisas históricas realizadas por meu pai, que levou em conta a época em que o local era simples aldeia indígena, a partir de 1661, sob missão dos padres jesuítas. Naquele mês (dia 24), a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, sob a regência do Maestro Mateus Araújo, fará a sua estréia na “Pérola do Tapajós”, em programa que inclui a bela 5ª Sinfonia de Beethoven (o compositor preferido de Wilson Fonseca), além da Protofonia (abertura) da ópera “Il Guarany” e o “Canto de Alvorada” (prelúdio-intermezzo do IV Ato da ópera “Lo Schiavo”), de Carlos Gomes, um compositor brasileiro muito apreciado por Isoca.
Naquela data deverá ocorrer o lançamento do livro “Meu Baú Mocorongo”, de autoria de Wilson Fonseca, editado pelo Governo do Estado do Pará, por intermédio de suas Secretarias de Cultura e de Educação.
A pedido do Dr. Gilberto Chaves, Diretor do Theatro da Paz, entreguei-lhe uma peça orquestral inédita, de autoria de Wilson Fonseca, intitulada de “América 500 Anos” (poema sinfônico, 1992), que terá a sua primeira audição executada em Santarém, pela OSTP, naquela mesma ocasião, fato que reputo histórico.
Foi justamente esse evento que me inspirou a compor, num fim de semana, a “Sinfonia do Tapajós”, peça que deverá ser apresentada, também em primeira audição, na minha terra natal, pela Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, por sugestão do Dr. Gilberto Chaves. A seu pedido ainda escrevi, neste mês de abril, um arranjo orquestral para a “Canção de minha saudade”, cuja música original é de meu pai (1949), com letra de meu tio Wilmar Fonseca, um autêntico “hino sentimental” de Santarém: “Nunca vi praias tão belas/Prateadas como aquelas/Do torrão em que nasci…”.
No programa constará também o arranjo orquestral que elaborei para o schottisch “Idílio do Infinito”, de meu avô Agostinho Fonseca (o “músico-poeta”), em comemoração ao centenário de sua chegada em Santarém (1906), quando ele fez a sua primeira composição, considerada a pioneira da “música santarena”. Neste 2006, o belo Tapajós é ainda a inspiração. Agora, sob a forma de sinfonia para Santarém.

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