O Poeta Wilson Fonseca

Ao ensejo da criação, ainda que por lei municipal, da Academia de Letras e Artes de Santarém, que tenho a honra de integrar, ao lado de uma plêiade de literatos e artistas de minha terra querida, dedico este artigo a todos os patronos e membros daquele Sodalício, a começar pelo mestre Paulo Rodrigues dos Santos, patrono da cadeira nº 29, que me foi destinada.
Wilson Fonseca integrou, como vice-presidente, o grupo de idealistas que, em 1975, reinstalou a “Sociedade Etnográfica e Literária Santarena”, que havia sido fundada em 1872 pelo cientista, de fama mundial, João Barbosa Rodrigues, quando esteve na Pérola do Tapajós. Durante oito anos, Isoca exerceu o cargo de correspondente literário da Academia Paraense de Letras, em Santarém, e também foi Presidente da Casa de Cultura, no período de 1975 a 1980. Foi membro da Academia Paraense de Música (cadeira nº 24, que tem como patrono seu pai) e da Academia Paraense de Letras (cadeira nº 7).
No final dos quatro volumes publicados da Obra Musical de Wilson Fonseca (Maestro Isoca), notadamente do Volume III – o último editado -, está organizado o catálogo das composições de meu pai, inclusive aquelas que possuem textos poéticos de sua autoria, pelo menos até parte do ano de 1982, ou seja, vinte anos antes de seu falecimento. Por isso, há necessidade de atualização daquele catálogo. Disponho de alguma coisa em Belém, mas o material que se acha em Santarém, sob os cuidados de meu irmão José Agostinho da Fonseca Neto, é mais completo.
Um ligeiro passeio por esse catálogo, que registra mais de 1.600 composições, revela que o compositor santareno abordou temas e gêneros dos mais diversos. Além das partituras musicais, ele também escreveu textos poéticos para suas composições.
São de sua lavra as letras de muitas músicas, tais como: Amar e Beijar (fox-canção, 1933), Eterno Sonho (fox, 1933), Teu Amor… E Nada Mais (fox-canção, 1933), Desolação (tango-canção, 1934), Vinha a Lua Surgindo (fox-trot, 1935), A Rosa que eu colhi (valsa, 1936), Um Lugarzinho Pra Você (fox, 1936), Tempo Feliz (samba-canção, 1936), Há Em Tudo Uma Ilusão (fox, 1937), Zangas de Amor (fox-trot, 1937), Amor de Sonho (valsa, 1939), Perfume (fox, 1939), Rosilda (valsa, 1939), Lá Muito Além Vai Um Passado (fox-trot, 1939), Na Hora do Adeus (fox-trot, 1940), Cidade-Sorriso (samba exaltação, 1940), Amazônia (samba estilizado, 1942), O Reviver de um Amor (fox-trot, 1942), Sou Feliz (fox-trot, 1942), Salete (valsa, 1942), Quebra, Nêga (maxixe, 1943), Minha Terra (marcha, 1943), Vou Dizer-Te Adeus (fox-canção, 1943), Souvenir (fox-canção, 1945), Japonesa do Brasil (marcha carnavalesca, 1949), Maria de Lourdes (bolero, 1949), Um Poema de Amor (bolero, 1953), Lenda do Boto (1954), Bernadete (valsa, 1956), Terra Querida (canção, 1961), Maria Ivany (valsa, 1963), Valsa dos 15 Anos (1963), Dança do Tipiti (dança coreográfica, 1963), Célia (valsa, 1965), Canção para o “Dia das Mães” (1967), Hino do São Raimundo Esporte Clube (1969), Buquê de Inspirações (1991).
Não raro, o presente de Isoca, nos aniversários de filhos, netos, sobrinhos, afilhados e amigos, era uma composição musical. É o caso de Salete, dedicada à sobrinha (filha de sua irmã Maria Annita); Maria Ivany, afilhada (filha de Ivan Toscano e neta do tenor Joaquim Toscano); e Célia, afilhada (filha de Célia Vaughan e também neta de Joaquim Toscano).
Vejam a beleza da valsa Bernadete (1956), sobrinha e afilhada (filha de seu irmão Wilde, Maestro Dororó), composta por Isoca: “Busco, em vão, traduzir… desvendar/O mistério que tem teu olhar!/Não consigo, sequer,/Seu matiz conhecer!/É o luar… Céu azul… Verde-mar/Que se espelham em teus olhos de santa?/Não cantarei/Em meus versos porque não sei!…//Teu olhar/É um poema divino… perfeito,/É sem par/Deus o fez sem defeito!/Não será/Um artista capaz de pintar,/Mesmo em matizes de ocaso,/O encanto do teu olhar!”
Algumas composições não têm letras, como as valsas Aita (1938), dedicada à sobrinha (filha de Rosinete Malheiros Altman); Maria das Dores (1955), Conceição (1957) e Maria de Jesus (1960), dedicadas às minhas irmãs; e “Uma Valsa Para Lorena” (1994), à minha filha.
Em homenagem ao então Prefeito de Santarém, Dr. Everaldo Martins – genitor da Drª Maria do Carmo, atual Chefe do Executivo Santareno – Isoca compôs o Dobrado nº 13 (1964) e o Hino do São Raimundo Esporte Clube.
Diversas dessas músicas foram dedicadas, como tantas outras, à minha mãe: “A Rosa que eu colhi”, “Um Lugarzinho Pra Você” e “Rosilda”. O fox “Perfume” foi presente que Isoca lhe ofereceu no dia do noivado. E o “Buquê de Inspirações”, a homenagem às Bodas de Ouro do casal (16.08.1991). No texto poético da música, tal como sugere o tema, o compositor utilizou expressões, entre aspas, de títulos de suas composições musicais dedicadas à querida esposa, com quem chegou a comemorar 60 anos de feliz união, quando foi executada, em Belém, esta composição, pelo cantor Francisco Campos, por mim acompanhado, ao piano.
Pelo exame da Obra Musical, é possível verificar que, no início de sua carreira, Wilson Fonseca escreveu diversas letras para suas próprias músicas, inclusive sambas e marchas, até mesmo para o Carnaval. Na última fase de sua vida, mais ou menos no período de 1972 a 2002, ele dedicou-se mais à música instrumental, embora sem abandonar as obras para o canto. Foi a época em que meu pai aperfeiçoou a sua técnica na criação de peças orquestrais e de câmara, no gênero mais erudito. No período anterior, que vai de 1950 a 1970, mais ou menos, ele produziu, a meu ver, a quinta-essência de sua obra musical, com a criação de músicas sacras, inclusive missas sobre o texto latino (ver o 2º Volume de sua Obra Musical), mas também sem abdicar a criação de músicas populares, especialmente para o canto. São desse tempo as suas peças mais conhecidas: “Canção de Minha Saudade”, “Lenda do Boto”, “Um Poema de Amor” e “Terra Querida”. Não obstante, desde a década de 40 do século XX, ele já tinha produções que exaltavam a terra natal: “Hino de Santarém”, “Amazônia”, “Cidade Sorriso” e “Minha Terra”. Nas décadas de 30 e 40 do século XX, ele foi muito produtivo na criação de músicas destinadas à animação de bailes para a sociedade santarena, daí as composições de inúmeros foxes (o gênero mais apreciado, na época), marchas, sambas, tangos, maxixe e até frevo. Na década de 70, Isoca compôs até sambas enredos para o Carnaval santareno. No final da década de 90, ele compôs a ópera amazônica “Vitória Régia, o Amor Cabano” (1996), com libreto de meu irmão, José Wilson. São dessa mesma fase outras duas composições de Isoca, que permanecem inéditas: “América 500 Anos” (poema sinfônico, para grande orquestra, 1992) e “Amazônia” (suíte em 3 movimentos, para jazz-band, 1996). Em 1998, ele ainda fez o arranjo orquestral para o “Hino da Justiça do Trabalho”, de minha autoria.
As últimas produções musicais de Wilson Fonseca foram quatro arranjos de composições de sua autoria, elaborados, com ajuda dos filhos, Vicente e Agostinho, e do neto, Agostinho Júnior, para o último recital em sua homenagem, realizado em Belém (8 de janeiro de 2002), denominado “Encontro com Maestro Isoca”, no Art Doce Hall, idealizado pela Profª. Glória Caputo e por mim organizado: “Um Poema de Amor” (bolero), para violino, viola, violoncelo e piano; “Santarém, pôr-de-sol” (noturno nº 1), para viola, violoncelo e piano; “Ave Maria nº 4” (sacra), para soprano, piano acústico, piano digital e orquestra (violinos, viola, violoncelo, flauta, clarinete, trompa e fagote); e “Canção de Minha Saudade” (canção), para coral, orquestra (violinos, viola, violoncelo, flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote), pianos, saxofone e violão, com participação da platéia.
Um gênero musical que Wilson Fonseca abordou praticamente durante toda sua carreira de compositor, iniciada em 1931, foi a criação de dezenas de hinos, dobrados (46 – o último foi a mim dedicado) e inúmeras peças para coral. Alguns hinos possuem textos poéticos do próprio compositor. Os dobrados para banda e as peças para coral revelam o talento do Maestro Isoca para a abordagem de obras polifônicas, ao mesmo tempo em que identificam a sua vocação para o contato permanente com grupos de intérpretes, por intermédio dos quais ele chegava aos ouvintes de sua música, sobretudo em Santarém. No fundo, a banda de música e o coral representam, notadamente nas cidades do interior, verdadeiros “conservatórios musicais populares”, além de constituírem autênticos grupos democráticos, na medida em que seus componentes, oriundos de diversos segmentos da população, estão todos nivelados como “músicos”, sob a batuta do maestro. Eu mesmo, como magistrado trabalhista, ainda integrei a então Banda Municipal “Prof. José Agostinho”, ao lado de simples operários.
Precisa é a avaliação do crítico musical Gilberto Chaves, atual Diretor do Teatro da Paz, sobre a obra do compositor santareno: “Com uma fertilidade mozartiana, criou obras de câmara para solos, duos, trios, quartetos, quintetos, canções, missas, cantatas, peças de banda, música de salão, coral e sinfônica, sem nunca descuidar das manifestações populares mais autênticas, como é o caso do seu conjunto de peças para as “Pastorinhas de Santarém”. Autodidata, a exemplo do Padre José Maurício Nunes Garcia, no século XVIII, tornou-se como aquele mestre do barroco, um mestre da nossa música no século XX, quer no plano regional, como, sem exagero e com maior dignidade, no nacional. Como todos sabemos, o regionalismo contém em sua própria definição a noção de confinamento, de limite. O maestro, porém, em lugar de se manter somente no território folclórico da nossa região, teve a sabedoria de, imitando os rios amazônicos, expandir os limites da sua música caudalosa, fazendo-a fluir sem fronteiras, aberta, livre e universal. Daí a diversidade de gêneros que aborda, a sua riqueza de ritmos e a variedade de inspiração melódica” (Texto no encarte do CD “Projeto Uirapuru – O Canto da Amazônia – Wilson Fonseca”, v. 1, Belém/PA, 1996).
Nos estudos que tenho realizado sobre meu pai, assim escrevi: “A considerar o extenso volume de sua produção, quase toda a obra musical do compositor paraense Wilson Fonseca (Maestro Isoca) permanece praticamente inédita e ainda aguarda pela descoberta dos estudiosos e da grande mídia nacional. Nascido e criado no interior da Amazônia, a obra musical do compositor santareno quase sempre revela influências do meio em que viveu, mas é universal. Alheio a modismos ou escolas, ele jamais se afastou das autênticas raízes nacionais, daí porque a sua música, impregnada de sadio regionalismo, guarda a essência e as características da alma brasileira e, ao mesmo tempo, possui uma dimensão universal, mesmo quando aborda as manifestações folclóricas, a cadência sincopada do maxixe ou o ritmo inconfundível do choro. Nela se observa uma nítida identificação com a herança transmitida por seus grandes mestres (Bach, Ernesto Nazareth e José Agostinho da Fonseca). Do primeiro, extraiu a estrutura fundamental, aperfeiçoada pela singular formação epistolar, com a proveitosa troca de correspondências com mestres da escola germânica (Frei Pedro Sinzig, Frei Alberto Kruse, o Tomás Samaí, e Dr. Heinrich Lemacher), o que lhe valeu um convite para estagiar na Alemanha, que não pôde atender. Do segundo, retirou a experiência da cultura de nosso povo (…). E do terceiro, recebeu o tempero necessário do sabor santareno, elemento telúrico e determinante em todas as formas que se expressou na arte dos sons” (“Tributo ao Maestro Wilson Fonseca”, publicado na Revista Brasiliana nº 11, de maio-2002, da Academia Brasileira de Música, sediada no Rio de Janeiro).
De certa forma, tem razão o jornalista Luís Nassif, ao afirmar: “morreu há dois meses, provavelmente não teve nem um registro sequer nos jornais dos centros maiores. Mas a tradição que deixou em Santarém, as sementes que plantou e frutificou, são um caso único na história musical do país” (artigo intitulado de “A canção amazônica de Isoca”, publicado no jornal “Folha de São Paulo”, caderno Dinheiro, edição de 28.07.2002).
Dificilmente, será encontrado um poema de autoria de meu pai que ele próprio tenha, posteriormente, musicado. Geralmente, ocorria o seguinte: a letra nascia juntamente com a música ou ele colocava letras em suas músicas, originariamente compostas sem nenhum texto poético (música pura).
Ocorreu, sim, em várias ocasiões, de Wilson Fonseca musicar, posteriormente, letras de outros poetas (parceiros).
Ás vezes, o parceiro colocava letra sobre música que ela havia composto antes. É o caso, por exemplo, do tango “Interrogação” (1936), cuja letra, de autoria de Felisbelo Sussuarana, tem uma curiosidade: papai enviou ao poeta a partitura da música ainda sem título, daí porque registrou, no lugar do nome da música, um simples “ponto de interrogação”, uma vez que deixou a cargo do parceiro a denominação da peça. Felisbelo Sussuarana, muito espirituoso, e que entendia também de música, intitulou a nova composição com o sugestivo nome de “Interrogação”, tema do poema. É umas das composições preferidas no repertório pianístico de meu pai. Realmente, um tango muito bonito.
Aliás, Felisbelo Sussuarana escreveu diversos textos poéticos sobre músicas compostas pelo Maestro Isoca, destinadas à execução em bailes da época, em Santarém, animados pelo famoso “Euterpe-Jazz”, conjunto musical criado e dirigido, inicialmente, por meu avô José Agostinho da Fonseca (1886-1945), e, depois, por Wilson Fonseca (Isoca), que, por motivo de saúde de seu pai, assumiu a direção da orquestra, no período de 1936 a 1953, ali atuando também como pianista e saxofonista.
Não raro, papai acrescentava, sobre suas músicas já compostas – e, inicialmente, executadas pela orquestra de baile, na versão apenas instrumental –, os textos poéticos (de sua autoria ou de algum parceiro), para atender a pedidos de amigos ou dos próprios intérpretes, particularmente o tenor Joaquim Toscano. Assim ocorreu com vários “foxes” que papai compôs nas décadas de 30 e 40 do século XX.
Conforme o estilo da época, alguns “foxes” tinham, além da introdução, uma longa primeira parte apenas instrumental, de modo que o cantor somente atuava na segunda parte, ocasião que exigia a elaboração de um texto poético bem curto. É o caso, por exemplo, do fox “Na hora do adeus” (letra e música de Wilson Fonseca, 1940).
Curioso também como nasceram algumas composições, com letras do próprio Isoca: “Lenda do Boto” (1954) foi composta na própria agência do Banco do Brasil, a pedido do gerente Jorge Chaves Camacho; “Um Poema de Amor” (1953) inspirou-se no choro acalentado do filho Agostinho Neto (Tinho), quando o sol se punha; “Santarém, pôr-de-sol” (1951) surgiu quando o compositor, após um ensaio do Coro da Catedral de Santarém, contemplava o ocaso, num banquinho da Praça da Matriz, na terra querida; e os primeiros compassos da Abertura Sinfônica “Centenário de Santarém” (1948) foram escritos no exato momento em que nascia o seu segundo filho (Vicente).
Papai costumava dizer que era apenas um “poeta bissexto” ou que ele fazia somente “letras para cantar” (para os outros cantarem, porque ele próprio não cantava, pois só escrevia a composição e tocava instrumentos).
Na tradição da família, também tenho escrito alguns textos poéticos para composições musicais de minha autoria. Fiz, ainda, letras para músicas de Wilson Fonseca, tais como “Valsinha em Si Menor” (1981/1996) e “Santarém, pôr-de-sol” (1951), esta elaborada após o falecimento de meu genitor (2003). Às vezes, componho músicas sobre poemas produzidos por outros parceiros. É o caso de “Rio – Símbolo” (marcha-rancho) e “Felicidade” (samba), ambas de 1978, cujas letras, criadas na década de 30 do século XX, são da lavra inspirada de Felisbelo Sussuarana, publicadas no livro “José Agostinho da Fonseca: O Músico-Poeta” (1978), de meu tio Wilmar Fonseca, autor da letra da belíssima “Canção de Minha Saudade” (1949). Aliás, Felisbelo (o poeta-músico) foi parceiro de três gerações dos Fonseca, desde meu avô José Agostinho da Fonseca (o músico-poeta). Seu filho Felisberto, poeta de escol, é parceiro de meu pai e autor de letras de várias músicas que compus.
Com todos eles aprendi, desde cedo, que o texto poético de uma composição não é mais e nem menos importante pelo fato de ter sido elaborado antes, durante ou depois da obra musical. Na verdade, o perfeito casamento entre letra e música independe do momento em que uma ou outra é criada. O fundamental é o encaixe harmônico, a cumplicidade e a simbiose que transforma as duas criações numa só criatura, como almas gêmeas.
No fundo, todo poeta é um músico e todo músico é um poeta.

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