O Ginasiano

Cabeça baixa, vinha catando pela sarjeta os frutos caídos das mangueiras que se enfileiravam na rua da frente. Passo firme e babando pelos cantos da boca, esmigalhava o alimento até que virasse a massa pastosa para engolir. Gostava muito de andar naquele pedaço, não porque fosse bem iluminado, não, era pela ventilação e porque tinha uma calçada larga. Que bom era andar no enxuto, ouvindo o próprio pisar cadenciado. No barro, no chão duro, já dormia, não bastava? Aquela era uma hora sagrada, a manga, mero pretexto para a andança noturna. Rara a residência que não lhe estendia um prato de comida, um leite com banana e uma vez até uns ovos estrelados. Não que ele pedisse, nem precisava, era a alma da cidade, a vida da cidade, a simpatia da cidade. Ultimamente, andava engordando, sentia cansaço quando tinha de apertar a marcha, ou mesmo correr, sempre que passava em frente ao quartel general do Boca Negra, o cão vira lata da Turca que já lhe deixara amargas lembranças no corpo. De manhã cedinho esse era seu único tormento quando descia para o mercado. Mas à boca da noite limitava-se ao trajeto tradicional, olhado com respeito pelas famílias e admirado pelas bem ou mal intencionadas mocinhas das janelas. Saía da praça, pegava a dita calçada e vinha subindo pela rua da Casa de Saúde, passava no hotel Uirapurú, na casa do mecânico viciado na BBC de Londres, na do farmacêutico e parava no trapiche. Depois prosseguia no passeio e subia até a esquina do seu Isoca, onde parava um pouco para se deliciar com o som melodioso de alguma nova inspiração do maestro. Foi assim, com a boca espumosa de manga, que ele avistou o senhor deputado sentado com a esposa na porta da rua. De longe ele ouvia apenas o zum-zum-zum da animada conversa. A mulher olha e previne o marido:

-É bom a gente sair que o Ginasiano vem vindo!

Muitos anos haviam se passado desde o dia em que o Ginasiano nasceu na fazenda Juquiri, até aquele instante em que ele divisou o nobre parlamentar acomodado na cadeira de vime. Não conheceu o pai. A mãe, depois de alguns meses tomou o barco de um conhecido marchante de Manaus e nunca mais deu sinal de vida. Foi ficando abatido, veio a época da febre e tomou-lhe conta um estado de desânimo tal, que mal abria os olhos, já esperando a hora da morte. Mas um dia apareceu a bondosa D. Zezé e o levou para a cidade. Foi muito caribé dado na mamadeira, vitamina, lavagem de creolina, purgante de mamona com quenopódio. Perdeu todos os cabelos, surgindo na nova pele sedosa uma casquinha branca que se desprendia na leve brisa do Tapajós.

Sentindo-se melhor, tratou de dar uma fugida pra conhecer os arredores. Subiu o morro do Grupo Frei Ambrósio e desceu pros lados da Praça São Sebastião. Achou aconchegante a praça, um lugar cheio de mangueiras onde logo foi atraído pelo gosto da fruta que caía de penca. Almoçou manga e dormiu sesta na sombra das árvores frondosas. De repente, ouviu sons que pareciam lhe dizer algo. Escutou o rumo. As vozes e o barulho vinham do recreio do ginásio. Dirigiu-se pra lá. Era mês de dezembro e havia uma tamanha agitação dos irmãos do Ginásio D. Amando, arrumando e ensaiando um presépio ao vivo. O brutamontes do irmão Norberto o agarrou à força e ele findou amarrado ao lado do Menino Jesus. Quando o presépio foi aberto à visitação pública, aproveitou um descuido e fugiu em desabalada carreira, dando ainda uma testada nos escrotos de um velho professor de geografia.

Medroso pelo acontecido, tão cedo não saiu de casa nem retornou ao ginásio. Depois voltou a sair, a brincar com a molecada. Com o início do ano letivo, ele ia junto e ficava o dia inteiro vadiando nas redondezas. Os irmãos acabaram simpatizando com ele. No outro natal participou ativamente do presépio e até ganhou elogios por bom comportamento. Passou a morar no ginásio, sendo adotado pelos irmãos da Santa Cruz e pela cidade inteira. A consagração, porém, só aconteceu na parada de 7 de setembro, quando desfilou com garbo, puxando o carro alegórico que levava a figura enlaçada do mártir da independência. O apelido de Ginasiano veio dessa época.

Com o passar do tempo, a vida livre e a farta alimentação, ficou forte como um touro. Às cinco da matina se postava na porta da Padaria Progresso, do seu Sílvio Português, e recebia um pedaço de pão quentinho misturado na cuia de café com leite. Dali seguia pro mercado. Adorava estar entre a multidão, onde ganhava sempre uma tigela de mingau de arroz, uma espiga de milho verde ou uma batata doce. No fim arrematava tudo com uma cuia de pinga de Abaeté. O vício da maldita veio devagarinho. Primeiro uma tigela, depois duas e chegou na cuia grande. Certo dia acordou de um porre, tendo entre os dentes um enorme charuto cubano, uma vergonha. Nesse estado, meio cá meio lá, ele avista o Boca Negra, o maldoso vira-lata da Turca. Sentiu ódio. Vendo a barra pesada, o cachorro entrou na casa com o Ginasiano atrás, dando peitada e jogando a porta abaixo. A residência virou um pandemônio. Ele alcançou o maldito no fim do corredor e o imprensou de encontro à parede sob os gritos histéricos da Turca. Boca Negra morreu ali mesmo, esmagado e sem tempo de um último latido de finado.

Certa manhã um moleque apressado e nervoso bateu na porta da D. Zezé.

-É pra nhora í lá no mercado agorinha, o Ginasiano tá morre num morre.

O alvoroço causado pela notícia foi complementado pelos preparativos de emergência da D. Zezé, que era sinônimo insofismável de lavagem intestinal. Com essa arte ela curava gripe, ataque histérico, espinhela caída e qualquer má disposição. Centrada nessa intenção, ela chega ao mercado e avista o Ginasiano caído no meio da rua, com os olhos vidrados e a respiração ofegante.

– Dessa vez abusou – disseram pra ela – tomou três cuias de cachaça.

D. Zezé examinou e logo viu que não era bem caso pra lavagem intestinal. Tirou uns trocados do sutiã (na época, porta-seios) e ordenou pro moleque:

– Rápido, vai ali na farmácia do seu Ninito Veloso e compra um vidro grande de sal de fruta.

Tudo providenciado, ela misturou o vidro inteiro num litro d’água e entornou goela abaixo do coitado. Veio uma tremedeira braba, Ginasiano levanta a cabeça e Buuuaahrrraaa! Deu o maior arroto da República, maior que o costumeiro arroto de pedantismo que o deputado propalava naquela noite de luar, quando Ginasiano vinha no seu passo lento pela calçada. O político estava feliz e não escutava o aviso da esposa.

-Cuidado, bem, vamos sair que lá vem o diacho do ginasiano.

Ele nada, pensando longe.

– Ah, filha, na próxima eleição eu saio pra prefeito e a gente acaba rico.

Quase não termina a frase. Ginasiano mete o chifre por baixo da cadeira de vime, levanta sua excelência no ar e o atira numa poça de lama fétida, no leito da rua.

Ginasiano, o boi ídolo da cidade, morreu de velhice muitos anos depois. Foi sepultado no terreno do D. Amando e Santarém toda chorou.

Cabeça baixa, vinha catando pela sarjeta os frutos caídos das mangueiras que se enfileiravam na rua da frente. Passo firme e babando pelos cantos da boca, esmigalhava o alimento até que virasse a massa pastosa para engolir. Gostava muito de andar naquele pedaço, não porque fosse bem iluminado, não, era pela ventilação e porque tinha uma calçada larga. Que bom era andar no enxuto, ouvindo o próprio pisar cadenciado. No barro, no chão duro, já dormia, não bastava? Aquela era uma hora sagrada, a manga, mero pretexto para a andança noturna. Rara a residência que não lhe estendia um prato de comida, um leite com banana e uma vez até uns ovos estrelados. Não que ele pedisse, nem precisava, era a alma da cidade, a vida da cidade, a simpatia da cidade. Ultimamente, andava engordando, sentia cansaço quando tinha de apertar a marcha, ou mesmo correr, sempre que passava em frente ao quartel general do Boca Negra, o cão vira lata da Turca que já lhe deixara amargas lembranças no corpo. De manhã cedinho esse era seu único tormento quando descia para o mercado. Mas à boca da noite limitava-se ao trajeto tradicional, olhado com respeito pelas famílias e admirado pelas bem ou mal intencionadas mocinhas das janelas. Saía da praça, pegava a dita calçada e vinha subindo pela rua da Casa de Saúde, passava no hotel Uirapurú, na casa do mecânico viciado na BBC de Londres, na do farmacêutico e parava no trapiche. Depois prosseguia no passeio e subia até a esquina do seu Isoca, onde parava um pouco para se deliciar com o som melodioso de alguma nova inspiração do maestro. Foi assim, com a boca espumosa de manga, que ele avistou o senhor deputado sentado com a esposa na porta da rua. De longe ele ouvia apenas o zum-zum-zum da animada conversa. A mulher olha e previne o marido:

-É bom a gente sair que o Ginasiano vem vindo!

Muitos anos haviam se passado desde o dia em que o Ginasiano nasceu na fazenda Juquiri, até aquele instante em que ele divisou o nobre parlamentar acomodado na cadeira de vime. Não conheceu o pai. A mãe, depois de alguns meses tomou o barco de um conhecido marchante de Manaus e nunca mais deu sinal de vida. Foi ficando abatido, veio a época da febre e tomou-lhe conta um estado de desânimo tal, que mal abria os olhos, já esperando a hora da morte. Mas um dia apareceu a bondosa D. Zezé e o levou para a cidade. Foi muito caribé dado na mamadeira, vitamina, lavagem de creolina, purgante de mamona com quenopódio. Perdeu todos os cabelos, surgindo na nova pele sedosa uma casquinha branca que se desprendia na leve brisa do Tapajós.

Sentindo-se melhor, tratou de dar uma fugida pra conhecer os arredores. Subiu o morro do Grupo Frei Ambrósio e desceu pros lados da Praça São Sebastião. Achou aconchegante a praça, um lugar cheio de mangueiras onde logo foi atraído pelo gosto da fruta que caía de penca. Almoçou manga e dormiu sesta na sombra das árvores frondosas. De repente, ouviu sons que pareciam lhe dizer algo. Escutou o rumo. As vozes e o barulho vinham do recreio do ginásio. Dirigiu-se pra lá. Era mês de dezembro e havia uma tamanha agitação dos irmãos do Ginásio D. Amando, arrumando e ensaiando um presépio ao vivo. O brutamontes do irmão Norberto o agarrou à força e ele findou amarrado ao lado do Menino Jesus. Quando o presépio foi aberto à visitação pública, aproveitou um descuido e fugiu em desabalada carreira, dando ainda uma testada nos escrotos de um velho professor de geografia.

Medroso pelo acontecido, tão cedo não saiu de casa nem retornou ao ginásio. Depois voltou a sair, a brincar com a molecada. Com o início do ano letivo, ele ia junto e ficava o dia inteiro vadiando nas redondezas. Os irmãos acabaram simpatizando com ele. No outro natal participou ativamente do presépio e até ganhou elogios por bom comportamento. Passou a morar no ginásio, sendo adotado pelos irmãos da Santa Cruz e pela cidade inteira. A consagração, porém, só aconteceu na parada de 7 de setembro, quando desfilou com garbo, puxando o carro alegórico que levava a figura enlaçada do mártir da independência. O apelido de Ginasiano veio dessa época.

Com o passar do tempo, a vida livre e a farta alimentação, ficou forte como um touro. Às cinco da matina se postava na porta da Padaria Progresso, do seu Sílvio Português, e recebia um pedaço de pão quentinho misturado na cuia de café com leite. Dali seguia pro mercado. Adorava estar entre a multidão, onde ganhava sempre uma tigela de mingau de arroz, uma espiga de milho verde ou uma batata doce. No fim arrematava tudo com uma cuia de pinga de Abaeté. O vício da maldita veio devagarinho. Primeiro uma tigela, depois duas e chegou na cuia grande. Certo dia acordou de um porre, tendo entre os dentes um enorme charuto cubano, uma vergonha. Nesse estado, meio cá meio lá, ele avista o Boca Negra, o maldoso vira-lata da Turca. Sentiu ódio. Vendo a barra pesada, o cachorro entrou na casa com o Ginasiano atrás, dando peitada e jogando a porta abaixo. A residência virou um pandemônio. Ele alcançou o maldito no fim do corredor e o imprensou de encontro à parede sob os gritos histéricos da Turca. Boca Negra morreu ali mesmo, esmagado e sem tempo de um último latido de finado.

Certa manhã um moleque apressado e nervoso bateu na porta da D. Zezé.

-É pra nhora í lá no mercado agorinha, o Ginasiano tá morre num morre.

O alvoroço causado pela notícia foi complementado pelos preparativos de emergência da D. Zezé, que era sinônimo insofismável de lavagem intestinal. Com essa arte ela curava gripe, ataque histérico, espinhela caída e qualquer má disposição. Centrada nessa intenção, ela chega ao mercado e avista o Ginasiano caído no meio da rua, com os olhos vidrados e a respiração ofegante.

– Dessa vez abusou – disseram pra ela – tomou três cuias de cachaça.

D. Zezé examinou e logo viu que não era bem caso pra lavagem intestinal. Tirou uns trocados do sutiã (na época, porta-seios) e ordenou pro moleque:

– Rápido, vai ali na farmácia do seu Ninito Veloso e compra um vidro grande de sal de fruta.

Tudo providenciado, ela misturou o vidro inteiro num litro d’água e entornou goela abaixo do coitado. Veio uma tremedeira braba, Ginasiano levanta a cabeça e Buuuaahrrraaa! Deu o maior arroto da República, maior que o costumeiro arroto de pedantismo que o deputado propalava naquela noite de luar, quando Ginasiano vinha no seu passo lento pela calçada. O político estava feliz e não escutava o aviso da esposa.

-Cuidado, bem, vamos sair que lá vem o diacho do ginasiano.

Ele nada, pensando longe.

– Ah, filha, na próxima eleição eu saio pra prefeito e a gente acaba rico.

Quase não termina a frase. Ginasiano mete o chifre por baixo da cadeira de vime, levanta sua excelência no ar e o atira numa poça de lama fétida, no leito da rua.

Ginasiano, o boi ídolo da cidade, morreu de velhice muitos anos depois. Foi sepultado no terreno do D. Amando e Santarém toda chorou.

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