Meu Compadre Tamaquaré

Estamos em época de férias. A tendência é que sejam procurados os balneários.
Nesta época, as pessoas, de todas as classes sociais, parecem até aves de arribação.
Saem em bandos no rumo das praias, das piscinas, do sol quente, dos biquínis e das bebidas geladas.
É uma liberdade geral. Vamos todos curtir nossa liberdade provisória, já que durante o ano todo ficamos encarcerados dentro de casa com medo da bandidagem.
Um compadre meu, do interior, o “seu” Antônio Tamaquaré, um sujeito meio paradão e abestado, encontrou comigo, me brindou com uma garrafa de andiroba e, papo vai, papo vem, chegou a me dizer que está quase virando bandido, pra ver se tem mais liberdade, mais regalia.
Eu disse: Não faça isso, compadre.
E ele me sentencia, bem atualizado, com toda a sua espontaneidade de homem interiorano:
Com um terço da pena cumprida o bandidão consegue ficar em liberdade, graças à ação dos advogados.
Hoje em dia ninguém mais fica 30 anos na cadeia, mesmo praticando os tais crimes hediondos, graças a essa tal generosidade das leis brasileiras.
Bandido pode sair da cadeia no dias das mães, no natal e em outros dias do ano.
Nós temos que ficar em casa, de portas e janelas gradeadas.
Bandido tem direito até a visita íntima, podendo ter mulher para manter relação sexual.
Pra nós aqui do lado de fora, tá difícil a coisa.
Bandido faz rebelião, quando a comida não está gostosa, o governo põe o rabo entre as pernas e bota comidinha boa lá para eles.
Se a gente aqui de fora quiser comer bem vai ter que trabalhar duro.
Bandido queima colchões e o governo providencia outros, novos, imediatamente, para que eles não durmam no chão.
Nós temos que dormir na rede suja, rodeada de carapanãs.
Bandido tem sempre a proteção da Comissão dos Direitos Humanos que só existe para eles…
Bandido pode atirar e matar policial, mas se policial atirar e matar bandido sofre toda a pressão da imprensa e da sociedade.
E nós não podemos andar com um mísero canivetinho no bolso.
Bandido rico tem dinheiro para contratar advogado que anda de carro importado pra não ir para a cadeia.
Bandido pobre, por não ter dinheiro, resolve logo praticar um crime bem pavoroso, pra sair na primeira página do jornal e na televisão, porque tem certeza de que sempre vai aparecer um advogado, que gosta de estar em evidência, que se oferecerá para defendê-lo.
Quando eu já ia saindo, ele me chamou e me deu de presente um tanto de piracuí feito de acari, o melhor que tem.
Agradeci e voltei pra casa pensando nas idéias desse meu compadre.
E não é que ele tem razão?

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