O olho

Servir à Pátria na Amazônia, principalmente em região fronteiriça com outros países, exige uma dupla coragem: além de enfrentar os problemas comuns a outras áreas, ainda tem que se ver com fatos inexplicáveis, insólitos ou até mesmo sobrenaturais. Os cursos de sobrevivência na selva dotam os militares de muitos ensinamentos, de conhecimentos variados sobre ervas, matos, animais e frutos comestíveis, cipós de água, enfim de como se manter vivo na floresta. Mas… como ensinar o inexplicável? Como transferir conhecimento daquilo que não se sabe? Como preparar o homem a enfrentar os insondáveis mistérios da floresta? Você sabe? Eu, de minha parte, com toda a minha vivência de Amazônia, nos seus diversos estados, em variadas e inúmeras cidades, vilas, aldeias e povoados, em incontáveis rios, igarapés, furos e paranás, confesso que não sei…! Chegarei um dia a saber? Quanto mais viajo pela Amazônia e procuro conhecer o que a selva e as águas escondem, quanto mais converso com o caboclo amazônida, mais chego à conclusão que apenas arranho os mistérios daquela e a sabedoria deste, coisa que nenhuma escola ou universidade ensina… Ah! a Amazônia e seus mistérios insondáveis! Ah! a filosofia e a sabedoria do caboclo da Amazônia! E quanto humildade numa e noutro…!

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Clevelândia do Norte ou simplesmente Clevelândia, como é mais conhecida, fica às margens do Rio Oiapoque, que separa o Brasil da Guiana Francesa. Em Clevelândia está sediada a Companhia Especial de Fronteira, unidade militar do Exército Brasileiro. Não é preciso dizer que quem está servindo nesta Companhia é corajoso, sem falar que passou por um adestramento especial, inclusive de sobrevivência na selva. Aliás, no meio da selva está Clevelândia, ligada por estrada de piçarra à Cidade do Oiapoque, sede do município de mesmo nome. Esta descrição é para que você saiba direitinho onde se passou esta história, que foi narrada pelo Sargento Assis, de 38 anos, natural do Oiapoque e em Clevelândia há 22 anos.
Com todo o conhecimento de selva que possui, o Sargento Assis não é de se amedrontar com qualquer coisa, mas o que viu realmente o levou à reflexão. Sabe o que foi? Não imagina? Então continue lendo para ver se a coisa era de brincadeira…!
Certa noite, há alguns anos atrás, saiu com o Cabo Nazareno a fim de caçar tatu. Entraram no mato e cada um foi para um lado, tendo o Sargento Assis ido pela parte que fica por trás da enfermaria do quartel.
Adentrou a floresta e após algum tempo pareceu ver alguma coisa se mexendo. Focou a lanterna e viu um pequeno olho que fitava em sua direção. Surpreso pelo fato de ser apenas um olho, pensou consigo mesmo: – Será que é algum animal que está cego de um lado?
Apagou a lanterna e, para aumentar sua surpresa, continuava vendo o olho brilhando na mata, fitando-o…! Acendeu a lanterna de novo, focando em cima do olho, que aumentou de tamanho. O Sargento Assis não acreditou no que estava vendo. Ao abrir os olhos, no escuro, viu o que sua mente se recusava a aceitar: não era nenhum animal, não era coisa alguma vivente que pudesse identificar. Era apenas um olho, a esta altura já de tamanho bem maior. Focou a lanterna novamente, e o olho aumentou ainda mais de tamanho, ao mesmo tempo em que ouvia um assobio horrível, estridente. O Sargento Assis ficou estático. Não conseguia se mexer. Apagou a lanterna e o olho continuou a fitá-lo e o assobio aumentou de intensidade. A esta altura o Sargento já não tinha mais dúvidas: era realmente só um olho, que foi aumentando de tamanho e se aproximou de onde ele estava, enquanto o assobio estridente se tornava insuportável aos ouvidos…
Pela primeira vez em sua vida o Sargento Assis se sentiu arrepiar. Um arrepio que foi dos pés à cabeça. Ainda focou a lanterna mais uma vez, para ver o olho maior e mais brilhante. A esta altura o assobio tornara-se ensurdecedor…!

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Imagine a cena: de noite, altas horas, na selva amazônica, um olho, somente um olho, isolado de qualquer cabeça, que aumentava de tamanho, a fitá-lo, ouvindo ao mesmo tempo um assobio de doer nos ouvidos e que também aumentava de intensidade e ambos, o olho e o assobio, se aproximando de você! O que você faria?
Já imaginou? Então vou continuar a história…

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O Sargento Assis, mesmo recusando-se a acreditar no que estava vendo e ouvindo, saiu em desabalada carreira, fugindo daquela cena horripilante, e só parou quando chegou, arquejante, ao quartel…!
Até hoje não tem explicação para o que viu e ouviu. Continua a levar sua vida normal na Companhia, porém nunca mais foi caçar na floresta que fica por trás da enfermaria do quartel…!

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E você, imaginou a cena?
Se imaginou, na sua imaginação o que foi que você fez? Esperou pelo olho, para ver do que se tratava? Se assim foi, vá até Clevelândia e veja-o de verdade, sem ser apenas na imaginação… e depois venha me contar o que aconteceu! Isto é, se você voltar…!

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